Chega-se e a gare do aeroporto é novinha. Há avenidas largas e parques bem arranjados, com os castanheiros da Índia de folhagem verde brilhante ainda em flor. Passa-se pelo enorme edifício presidencial, e o motorista explica rapidamente e com ar de desagrado que é "sovietic architecture". O hotel é inenarrável. Chama-se Lafayette mas devia ser "Pompadour" pois a decoração a la française é de um pirismo atroz. Para trincar qualquer coisa, sugeriram o restaurante do outro lado da praça. A sala é um pouco soturna, com um certo cheiro a comida e a música ambiente dispensavel. Numa televisão passa um documentário sobre Bucareste entre os anos 60'e 80. Mas tem toques de requinte, como a mesa de honra, de toalha adamascada, em cima de um estrado com luzinhas coloridas a acender e apagar, candelabro e o enfeite especial, em cetim, das cadeiras...
Margarida
Bucareste, Abril de 2015
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Olhar sobre Bucareste
Uma caminhada de final de tarde pelo centro e zonas próximas mostra a realidade da cidade. Edifícios com ar parisiense ou traços otomanos, lembrando Istambul, mas em grande parte em deplorável estado de conservação. As amostras da elegância que deve aqui ter existido pelos inícios do século passado são evidentes quando o restauro lhes devolve a dignidade passada. Nalguns a comparação é evidente, quando uma parte do edifício está novo e a outra a desfazer-se. Também não ajudava a vizinhança da arquitetura soviética, nunca bonita mas pior pelo estado enegrecido e degradado.
Numa zona de moradias apalaçadas as restauradas e as decrépitas misturam-se.
Os sinais de terceiro mundo são muitos e gritantes. Os cabos eléctricos à molhada pendurados em postes precários, as ligações do gás nas frontarias com os contadores espetados em tábuas, passeios e ruas com buracos e muitas pessoas com ar pindérico.
Mas há, claro, o reverso. Parque automóvel com uma mistura onde abundam os topos de gama, os hotéis de luxo em edifícios adaptados e de encher o olho, as marcas de luxo...
Margarida, Abril de 2015
Margarida, Abril de 2015
terça-feira, 29 de abril de 2014
Arequipa, a cidade amena
Foi um daqueles casos muito agradáveis em que a realidade excedeu largamente as expectativas.
Depois das condições agrestes do Lago Titicaca (temperaturas baixas, vento e ar rarefeito devido aos 3800-3900 metros de altitude, gerando algum desconforto físico) e de uma viagem de 7 horas em autocarro (confortável), chegámos já de noite a Arequipa. Além dos benefícios da redução da altitude para menos de 2500 metros, a minha expectativa era moderada, apenas baseada nas informações do guia de viagem. Para apimentar as coisas, o condutor do autocarro perdeu-se nos arrabaldes da cidade (um caos urbano, comum nas cidades peruanas mas todavia espantoso mesmo para um urbanista habituado a correr mundo). Durante meia-hora, o autocarro pullman de 2 andares circulou fora das vias, avançou longamente em contra-mão, fez marcha-atrás umas 4 ou 5 vezes, ficou parado, aparentemente indeciso, durante largos minutos, fez sair um dos condutores para parar o tráfego contrário. Ao princípio fez pensar que se poderia tratar de um bus-jacking.
Primeiras surpresas: um taxista simpático e um acolhimento afável e muito civilizado na recepção do hotel, localizado num edifício simpático a menos de 5 minutos a pé da Plaza de Armas. Quarto confortável e acolhedor.
As grandes surpresas chegaram no dia seguinte. Depois de um pequeno-almoço "caseiro" e apetitoso saímos para a rua, em pleno centro de Arequipa, e fomo-nos deparando com uma sucessão de "casonas" coloniais, dos séculos XVI a XVIII, absolutamente deliciosas. Um clima ameno e uma atmosfera de rua igualmente amena.
Ao segundo dia outro "prato de substância", o Convento de Sta.
Catalina. Fundado em 1580, é uma cidade dentro da cidade (relação traduzida na
denominação local de "cidadela"). Igreja e extensos e espectaculares
espaços comunitários (agora transformados em galeria de arte da Escola de Cusco
e das jóias do convento) e generosas infra-estruturas comuns (cozinhas,
armazéns, lavandarias, cemitério, horto e jardim, vários claustros
introspectivos e decorados com cenas religiosas pintadas nas paredes
perimetrais).
Cada
núcleo organizado em torno de pátios comuns e o conjunto estruturado por uma
rede de ruas estreitas com nomes de cidades espanholas. O todo encerrado da
restante cidade por um muro perimetral de 4 ou 5 metros de altura, em
"sillar" (*), ocupando uma mega "quadra" de 20.000 m2.
Absolutamente fascinante.
Quatro horas de deambulação e descoberta permanente e
uma memória muito agradável quando somos restituídos ao mundo secular da
cidade.
E há a Casa de Moral (assim denominada por causa da árvore bi-centenária que se ergue no centro do pátio principal), "casona" patrícia construída em estilo barroco-mestiço em 1730, na habitual sequência de pátios, comum nas casas coloniais de Arequipa. Propriedade original de uma das famílias mais influentes da cidade, a sucessão de espaços que se organiza em torno do pátio principal, com as suas generosas dimensões em planta, pés direitos elevados e janelas rasgadas na vertical jorrando luz para o interior. Tudo bem restaurado, mobilado e decorado com exemplares de época (vários pertencentes à família original), é uma fascinante lição da arte de bem habitar. Mais uma cereja em cima de um bolo já muito apetitoso.
E a travessa
por detrás da catedral, para beber um copo ou almoçar numa esplanada ou jantar
num terraço sobranceiro.
Arequipa, uma cidade que ilustra bem o que ser "cidade" significa, uma cidade amena e convivial onde será sempre bom voltar.
Arequipa, uma cidade que ilustra bem o que ser "cidade" significa, uma cidade amena e convivial onde será sempre bom voltar.
(*) O "sillar" é a designação local de uma pedra vulcânica branca e
porosa, correntemente utilizada na construção dos edifícios de Arequipa até ao
século XIX. A nobreza do material aliada à textura da pedra banhada pelo sol dá
um belo efeito.
Escrito por
Vitor
Viver sobre juncos. As ilhas dos Uros, no lago Titicaca
Esta é
a história
contada de Cristina e Vítor Suaña,
aymaras, construtores de ilhas e empresários
da ilha Khantati (amanhecer em língua
aymara), no conjunto das ilhas dos Uros, no lago Titicaca. O lago, a 3810 m de
altitude, estende-se entre o Perú
e a Bolívia,
com águas
misteriosas e que, nesta manhã
calma, espelhavam o céu.
Há
uns 10 anos, Cristina e Vitor acharam que havia demasiada gente e conflitos na
ilha onde viviam, muitos dos quais devidos a diferentes atitudes face ao
turismo emergente, e tomaram a decisão
de construir a sua própria
ilha. As
ilhas são
plataformas flutuantes, espessas, de camadas de totora, uma espécie de juncos. Para que as ilhas não derivem ao sabor dos ventos,
amarram-se a postes de eucalipto espetados no fundo. As ilhas agrupam-se, numa
espécie de malha
urbana, com pequenos canais entre elas e estruturadas pelo rio central por onde
se faz a grande circulação
entre a cidade de Puno e o lago e as suas ilhas.
As plataformas exigem manutenção continuada, pois a degradação do material submerso requer uma constante reposição na parte superior. Os colmos frescos são verdes, com uma secção mais ou menos arredondada, que se vai achatando à medida que secam e ficam castanhos, cor de café com leite. Quando se atraca e se dão os primeiros passos na ilha, estranha-se o fofo e caminha-se com cuidado, como se fosse preciso manter o equilíbrio.
Tudo na ilha é
feito de totora, as casas têm
como base de suporte uma camada de totora, paredes entrançadas e telhados com esteiras, os
bancos são
molhos cilíndricos
bem amarrados. Vivem na ilha quatro famílias,
ligadas entre si, e que cooperam na gestão
da empresa.
O Vítor
levou-nos no seu barco e mostrou como se corta a totora, com uma pequena lamina
amarrada na ponta de uma vara comprida. São
cortadas acima da raiz flutuante, com comprimentos de perto de 2 m. Também exemplificou a pesca dos pequenos
peixes originais do lago, com redes fixas esticadas, e queixou-se que as trutas
que foram introduzidas se desenvolveram bem de mais e comem os outros peixes.
Contou como iniciaram a construção da primeira cabana para alojar
turistas, ridicularizados pelos amigos - que turistas quererão dormir numa ilha? -, como de facto
quase desistiram quando não
vinha ninguém
e, reconheceu-o, só
a persistência
da Cristina os manteve. Depois, veio um turista, depois outro, começou a funcionar o boca a boca e
construíram
mais cabanas. Instalaram casas de banho ecológicas, painéis fotovoltaicos, por enquanto sempre
a investir. As reservas e toda a correspondência electrónica são tratadas por telemóvel. Mas agora ficaram famosos, a
Cristina aparece no Lonely Planet!
domingo, 27 de abril de 2014
Eu não acredito em espíritos, mas ...
Circunstância: cerca das 19:00 horas do dia 14 de Abril, plena Semana Santa, Plaza de Armas de Arequipa, Perú, passeio fronteiro å catedral. Pela rua que circunda a praça avança em passo cadenciado uma procissão com os seus andores, os círios, os encapuçados na boa tradição hispânica e os fiéis segurando velas acesas que tremeluzem na noite. Eu assisto de pé na beira do passeio central, no meio da pequena multidão que acompanha o cortejo.
De repente, um homem humilde, de meia idade e olhar limpo, pára ao meu lado e diz-me a meia voz: "Arquiteto, se recuerda de mi ? Estuviemos juntos en la obra depués del temblor de 2001, en que reconstruímos la torre de la catedral". E apontou para a torre do lado direito, cenicamente iluminada na noite escura. Lá lhe expliquei que não sou peruano, que devia ser um equívoco. Ele olhou com ar interrogativo mas o meu sotaque deve-o ter convencido. Passado um curto instante avançou e desapareceu na multidão. O que eu não lhe disse é que sou arquitecto.
Escrito por Vitor
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