domingo, 27 de abril de 2014
Eu não acredito em espíritos, mas ...
Circunstância: cerca das 19:00 horas do dia 14 de Abril, plena Semana Santa, Plaza de Armas de Arequipa, Perú, passeio fronteiro å catedral. Pela rua que circunda a praça avança em passo cadenciado uma procissão com os seus andores, os círios, os encapuçados na boa tradição hispânica e os fiéis segurando velas acesas que tremeluzem na noite. Eu assisto de pé na beira do passeio central, no meio da pequena multidão que acompanha o cortejo.
De repente, um homem humilde, de meia idade e olhar limpo, pára ao meu lado e diz-me a meia voz: "Arquiteto, se recuerda de mi ? Estuviemos juntos en la obra depués del temblor de 2001, en que reconstruímos la torre de la catedral". E apontou para a torre do lado direito, cenicamente iluminada na noite escura. Lá lhe expliquei que não sou peruano, que devia ser um equívoco. Ele olhou com ar interrogativo mas o meu sotaque deve-o ter convencido. Passado um curto instante avançou e desapareceu na multidão. O que eu não lhe disse é que sou arquitecto.
Escrito por Vitor
Fim de tarde em Machu Picchu
Faz-se o passeio lento, e a partir do princípio da tarde desaparecem os grandes
grupos apressados. Restam os pequenos grupos, uns sozinhos outros com guia, mas
com um ritmo também
lento. Na parte baixa da cidade, na zona de habitações, estávamos sozinhos e aí nos estiramos nas pedras do largo.
Já
no caminho que cruza os terraços
em socalco (uma lama pastava aí
conscenciosamente) e que leva à
saída,
sentamo-nos e deixamos que a tarde corresse. Em frente, os montes mais ou menos
cónicos
enquadram a cidade sagrada. Os tons de verde começavam, em contra luz do sol poente, a
ser substituídos
por graduações
de cinzentos. Caíram
uns pingos e dois arco-íris
concêntricos
formaram-se entre os picos. Os trabalhadores da manutenção terminaram o dia e passaram por nós em fila, buenas tardes, sempre a
simpatia.
Fomos dos últimos
a sair.
Um almoço em Machu Picchu
O número máximo de visitantes admitidos diariamente no interior do sítio arqueológico classificado de Machu Picchu é de 2500. Na mesma linha de controlo dos efeitos da pressão humana, é interdito levar para o interior do perímetro alimentos e bebidas em garrafas descartáveis.
Como habitualmente, planeámos a nossa visita a Machu Picchu sem intervenção de qualquer agência de viagens. Lemos os guias do costume, informámos-nos localmente e decidimos como íamos fazer: dormida em Ollantaytambo (último povoado normal antes do far-west de Águas Calientes, a povoação na base da montanha onde está Machu Picchu), ida no primeiro comboio da manhã, de forma estarmos lá em cima por volta das 8:30h (antes da chegada das hordas que apanham os tours a partir de Cusco). E decidimos passar o dia no sítio, deambulando ao nosso ritmo (e não no passo de trote das visitas guiadas) e, sobretudo, ficar até perto da hora de fechar, de modo a assistir ao pôr do sol lá em cima.
Ora, este plano continha um senão: a perspectiva de um dia inteiro de sobe e desce monte acima e monte abaixo sem ingerir qualquer alimento. Decidimos furar a regra da proibição de introdução e consumo de alimentos (de forma responsável, naturalmente, mas mesmo assim com alguma expectativa).
Cerca do meio dia chegamos ao "jardim", uma pequena mancha plantada de várias espécies representativas da flora alimentar e decorativa dos quechuas. Um canteiro de uns 15 m2, pontuado de orquídeas, arbustos e pequenas árvores, situado junto da Praça Sagrada. Sentámos-nos frente a frente sobre duas das muitas pedras "cansadas" (*) que abundam no sítio e começámos discretamente a comer a sandes e a beberricar do termos com chá de cola que preparáramos ao pequeno almoço. Mantendo alguma vigilância dos zelosos guardas, com os seus apitos estridentemente sancionadores das transgressões.
À nossa beira iam chegando sucessivos grupos de visitantes liderados pelo respectivo guia, que ia debitando a explicação apropriada ao local. Uma rábula mais ou menos longa e pormenorizada, consoante a dedicação e competência do guia, na qual pontuavam inexoravelmente as palavras "passion fruit" acompanhadas de um gesto indicativo da parte do guia e seguidas de alguma exclamação de admiração por parte dos ouvintes. E depois aquela tropa lá seguia o seu caminho. A repetição da cena ia gerando em nós um certo clima de galhofa. Foi assim durante 40 minutos. Comemos tudo o que levámos para a circunstância e, sem deixarmos vestígio da nossa passagem, também seguimos caminho, saciados e com uma ligeira indigestão auditiva de passion-fruit.
(*) Pedras "cansadas" é a designação dada a blocos de pedra já parcialmente aparelhados que se encontram espalhados nos sítios arqueológicos incas e que se presume possam ter sido abandonadas no caminho entre a pedreira e o local de aplicação. Neste caso concreto, poderá também tratar-se de meras pedras deslocadas por derrube das construções existentes.
Escrito por Vitor
Machu Picchu, a cidade nas alturas
Agora já
à distância de alguns dias, é possível explorar o que que se sente em
Machu Picchu e o que fica na memória.
Sem dúvida,
a imagem indelével
é a clássica da grande praça verde, das construções circundantes, com a montanha do Wayna
Picchu em frente, de sentinela. A toda a volta, os cumes das montanhas
circundantes, as encostas escarpadas com o vale e o rio que se apercebe bem lá no fundo. Sem dúvida que se está mais perto do mundo de cima, ou pelo
menos dos astros, do sol e da lua, bom local para observatório astronómico de previsão dos equinócios e solstícios.
Ficam também
gravadas na memória
as pedras talhadas, as paredes que se alinham, paralelas, as linhas horizontais
e verticais dos socalcos, as aberturas trapezoidais das janelas e portas.
Parece estranho como este império teve uma duração tão curta - 100 anos – e como foi possível construir cidades, obras hidráulicas e agrícolas, uma rede de vias que se
estendia para os quatro cantos do domínio:
o Tahuantinsuyo, o reino das quatro regiões,
da costa norte junto ao Equador até
ao lago Titicaca, e norte do Chile, da selva interior ao deserto costeiro.
Os espanhóis não conheceram Machu Picchu. A cidade foi abandonada e assim ficou, no alto, apenas visitada pelas gentes da montanha. Em 1911, o americano Hiram Bingham, levado por um guia local, descobriu a cidade e ficou famoso (Inca land: Explorations on the high lands of Peru, 1922, free download Gutenberg.org). Errou no seu papel, que não era o último reduto do império nem do poder, nem o centro religioso, antes uma residência real e cerimonial, o lugar mágico de observação e de ligação ao sol e à lua. E essa mística perdura, e parece que algo do mundo do condor fica nos viajantes imaginativos.
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