quinta-feira, 17 de abril de 2014

Patchwork de sal: as salinas de Maras


Imagine-se um desfiladeiro estreito que abre para o vale do rio Urubamba. Numa das encostas brota uma nascente salgada vinda da montanha, bem mais salgada que a água do mar (sim, bebi um gole!). Por isso, a encosta transformou-se numa sucessão intrincada de pequenos terraços, formando piscinas salgadas em tons de sal e castanho. A produção de sal vem desde os tempos pré-inca, em moldes que não devem diferir muito dos de hoje. São cerca de 3000 terraços, explorados pela comunidade, que atribui a exploração às famílias que o desejem.
 
A época de produção de sal vai começar, agora que terminou a estacão das chuvas. A água da nascente é levada por um canal principal quase de nível e subdividida por múltiplos canais, por vezes quase só um fio, que descem a encosta, regulados por comportas. Tudo moldado na terra da montanha, agora já esbranquiçada.

Caminha-se em fila ao longo do canal, com cuidado para não cair numa salmoura pouco convidativa. É um espectáculo incrível e fica-se a admirar os pequenos retalhos de bordos arredondados, por onde circulam os canais de alimentação, colados uns aos outros, formando um patchwork em tons de amarelo, castanho e branco. Em breve será grande a azáfama a controlar o nível de água, a raspar o sal e subi-lo às costas em equilíbrio precário.
 


segunda-feira, 14 de abril de 2014

O mercado de San Pedro

Já em fim de  tarde, o mercado de San Pedro começa a esmorecer. Ao redor ainda há muita animação, vendedoras de muitas coisas, gente sentada em bancos, policias a vigiar.

O mercado, um grande edifício com estrutura interior em madeira branca, estava já a esvaziar-se. As ruas de tecidos mostram o colorido dos panos de cá e cada banca tem o seu alfaiate ou costureira com a máquina de costura. Seguem-se as bancas de frutas, de legumes, de carne, uma grande secção com queijos. As vendedeiras de leite medem o leite e despejam-no em sacos de plástico, que atam com nó e entregam ao cliente. Não vi entornar nada ...
E come-se uma sopa antes que se encerre o comedor.



Padrões de pedra

São espectaculares as paredes e muros de pedra talhada feitos pelos quechuas durante o império inca. Um trabalho de precisão no corte e no encaixe, criando estruturas sólidas que resistiram à conquista e, principalmente, aos tremores de terra. A própria construção, mais larga na base, e as aberturas de forma trapezoidal, constituem elementos de resistência aos abalos.

Nas construções nobres, as pedras dispõem-se em fiadas paralelas, com junções perfeitas, e superfície polida. Mas também se encontram padrões de grandes pedras, ciclópicas, em que são feitos encaixes variados criando poliedros de muitos vértices, Nas estruturas ditas celulares, as pedras' mais arredondadas, dispõem-se formando uma espécie de favo.

Em algumas ruas de Cusco, passa-se estreitamente entre muros ciclópicos. Mais do que a grandeza da catedral ou igrejas, são estas pedras incas, encimadas pelas construções espanholas que me fazem a memória de Cusco.


Cusco, o umbigo do mundo

De Lima, a capital de Pizarro do império colonial, à beira do Pacifico, voa-se numa hora para a capital inca, Cusco, a tradução castelhana do Qosqo em língua quechua, e que significa o umbigo do mundo. Sai-se do avião a uma altitude de 3300 m, com a cabeça meia zonza. O mal de altura, resultado do ar rarefeito e oxigenação deficiente, pode dar dor de cabeça, vómitos, opressão, falta de ar, ansiedade. E parece que não há regra, uns têm, outros não. Na nossa pequena amostragem, a incidência foi de 50%. A aclimatação faz-se num ou dois dias, o que não impede que se fique ofegante com qualquer esforço, sempre.

Os espanhóis fizeram em Cusco  o que era a sua prática de conquistadores. Destruir a cidade e refaze-la ao seu estilo, o agora chamado colonial. A Plaza de Armas, com a sua catedral, os edifícios em redor com arcadas e alpendres. Um tecido urbano reticulado, praças que se sucedem, muitas igrejas e conventos, varandas fechadas.

Mas não destruíram as fundações e paredes de pedra das construções inca. Utilizaram-nas, o que dá a Cusco um ar especial de mescla de mundos.
Mas as pedras e muros incas merecem uma entrada separada!