terça-feira, 1 de abril de 2014

A gente de cá

Passear nas ruasid das cidades dá uma boa panorâmica das gentes, do espirito e do ambiente. Assim foi no domingo à tarde, bem na zona do centro de Lima, principalmente entre a Plaza San Martin e a Plaza de Armas e depois até ao Parque da Muralha. Muita animação, famílias, grupos e amigos,  lojas abertas, vendedores de rua de doces, gelados, ovos de pomba, balões coloridos.  Os cambistas de rua estão perfeitamente identificados com um colete amarelo e oferecem um cambio melhor que o banco, foi aí que troquei euros por soles. 

E muitas crianças  e jovens, mostrando outra realidade demográfica. 

E também a realidade étnica é diferente. As pessoas são em geral pequenas, com pele castanha, cabelo muito preto e feições de ascendência indígena, os índios do Novo Mundo. São muitas as etnias no Peru e estima-se que correspondam a cerce de um terço da população. Alguns são poucos e bem localizados geograficamente, como os Uros do lago Titicca com 2000 pessoas, mas os Quechua são mais de 3 milhões e estendem-se para a Bolívia e o Equador, com a língua quechua a ter mais de 8 milhões de falantes.
E há algumas imagens que se comprovam, o chapéu, o colete, as tranças.




segunda-feira, 31 de março de 2014

Um hotel de época: Gran Bolivar, Lima

Há hotéis que trazem consigo épocas passadas e farrapos da história. Dão uma atmosfera, a ideia de outra vida, e essa viagem-na-viagem faz esquecer algumas das comodidades das cadeias internacionais. O hotel Gran Bolivar é um marco histórico em Lima. Foi construído para receber os notáveis que,  em 1924, viriam festejar os 100 anos do desfecho vitorioso da batalha de Ayacucho, que deu a libertação do Peru do rei de Espanha.
Num dos lados da Plaza San Martin, ela própria também construída para a comemoração, o edifício é imponente, mas mantém uma certa simplicidade nas linhas clássicas e simétricas. A cúpula do átrio de entrada, em vidros coloridos, é uma das imagens dessa época, e é fácil imaginar os cavalheiros e senhoras a conversar neste espaço circular,  de vez em quando lançando um olhar apreciativo para cima.
Pouco deve ter mudado. Na enorme recepção, o ar retro é acentuado por um Ford T1920,. O mobiliário mantém-se. E por aqui passaram famosos,  Clark Gable e Cantinflas,  Hemingway e talvez Neruda tenha aqui escrito um poema.Mas é certo que esta entrada no blog foi mesmo escrita aqui, no quarto 324, ao fim de uma tarde de passeio pelo centro histórico.



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Viagem em salpicos (a seguir a Viagem falhada) Spot travel (following Failed travel)

Spot travel
Há viagens que se desenvolvem aos saltos, com paragens diversas de oportunidade ou decisao momentáneas, sem fio condutor temático, geográfico ou programático. Fica delas uma amálgama heterogénea em que se fundem paisagens, estilos arquitetónicos, ruínas arqueológicas, cidades e praças. Sao salpicos de realidades, pontos espalhados num mapa.
Vejamos:
- A cidade árabe e medieval de Cuenca, encarrapitada num morro íngreme na confluência de dois ríos
- Uma praça rectangular no começo da noite na baixa de Girona
- Em Génova, o porto antigo, a cidade armadora e de comerciantes, de palácios renascentistas e barrocos
- Uma estrada serpenteando na costa, até à enseada de Portofino, um cais baixo de Mediterrâneo com restaurantes e lojas, grandes lanchas encostadas, alguns veleiros fundeados
- O largo de Garda, entre montanhas, a lembrar vilegiaturas burguesas
- Verona, a renascença de praças e palácios, Romeu e Julieta, a exposiçao ocasional das fotografías de Robert Capa
- Avignon, o palacio gótico dos papas e a ponte sob grande ventania
- St Maries de la Mer, no fim do dia, com as santas já encerradas na sua igreja fortificada, a praia de areia a completar a história e a lembrar um passado de celebraçoes gitanes
- Barcelona, uma revisitaçao da Sagrada Família, com o interior agora já sem obras e com o recente revestimento de cortiça, e a igreja gótica de Santa Maria de la Mar, esta uma romaria literária
- O delta do Ebro, um triângulo plano de arrozais dourados a perder de vista, entrecortados por braços do rio e um sistema complexo de canais, praia baixa de terra alagada
E o que mais aí vier …

Failed travel
Uma viagem salpicada pode resultar de uma viagem falhada. Prepara-se o circuito, a correr uma regiao ainda náo visitada. Lê-se a informaçao, escolhe-se a volta (mais ou menos, deixando espaço para o imprevisto e tempos de refúgio de slow travel). Carrega-se o imaginário de farrapos de fotografías já vistas e de protoemoçoes imaginadas.
Chega-se ao balcao do check in. ”Náo constam das listas, diz a menina, nao há vestígios dos vossos nomes, nem de ida nem de vinda”. O mesmo diz a empresa, que pelos vistos nao deu seguimento a uma reserva aceite. Na hora nao há vôos, ou sao custos exorbitantes.
Vamos portanto depender de nós, sentamo-nos no carro (nem se desfazem as malas!) e por aí se vai…

(escrito em l’Ampolla, delta do Ebro, Espanha, a 3 de Setembro de 2012)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Paisagem urbana heteróclita: Trivandrum

Heteróclito (adj.): que se desvia dos princípios da analogia gramatical ou das normas de arte; diz-se do que é excêntrico, singular, fora do comum: do grego ετερόκλιτος (heteróklitos) , pelo latim heteroclitus.

Tenho um amigo – aliás bom escrevente, conhecedor de significados e defensor da grafia do seu tempo de escola - que acha esta palavra difícil e o seu uso até pedante. Por isso aqui fica o esclarecimento, pois quase tudo é heteróclito nas cidades do oriente.
Trivandrum, no estado indiano de Kerala é um exemplo. A cidade é atravessada por uma avenida larga de múltiplas faixas mas para os lados multiplicam-se ruas de todos os tamanhos, desde vielas em que só cabe uma pessoa a caminhos largos com árvores.
O trânsito é verdadeiramente heteróclito, numa amálgama sem regras de peões, bicicletas, motos, tuk-tuks, carros e camionetas, que se misturam e movem aparentemente sem drama, tendo um concerto de buzinadelas preventivas como banda sonora. Não esquecendo os cães, cabras e vacas. Atravessar ruas e cruzamentos é um desafio de oportunidade!


Os edifícios sobressaem, de todos os tamanhos, de todos os feitios, e em múltiplos estados de conservação desde os inacabados às ruínas, dos espelhados aos que vêm de outros tempos. Letreiros por todo o lado, em misturas de cores – embora predominem os vermelhos e os amarelos – e de conteúdos. Anunciam-se computadores, jeans, cursos superiores, roupas e telemóveis. As lojas abrem-se para a rua, e nos passeios ou nas bermas passa-se da venda de frutas aos saris e aos electrodomésticos. Cozinha-se,come-se ou está-se apenas. Nos vazios acumula-se o lixo, onde os plásticos dominam.



E às vezes uma jóia: um palácio do tempo dos marajás, edifícios vitorianos da administração britânica, a biblioteca universitária rodeada de verde, em pequenos oásis de harmonia. Por vezes um templo. E nesse sítio parece fazer-se silêncio e o mundo para num recolhimento sentido de contacto com outra dimensão.

Travel light

Viajar leve, será este o meu próximo conceito.
Precisa-se de muito pouco, na realidade. E no balanço de vantagens e desvantagens, os inconvenientes das bagagens “de porão” na limitação ao movimento e à espontaneidade de decisões menos convencionais em muito ultrapassam o eventual conforto de ter “as nossas coisinhas todas” e, se calhar, que regressam intocadas.
Vou fazer a tentativa de viajar com pouco. Entra-se e sai-se dos aviões, pode-se apanhar comboio e autocarro, saltar num sítio e caminhar à procura de poiso, alterar planos ou ir sem planos. Será preciso alguma logística e escolher bem o que couber num volume cabin-size. Agora com um requisito adicional: secar rápido! Será mais fácil para destinos quentes, pois camisolas, anoraks e botas são volumosos. Mas se se conseguir passar a barreira da “só-uma-bagagem-de-mão” no avião, depois ficam vestidas… E dizem os viajantes a tempo inteiro que a opção de compra em cada destino é muito sensata.
O que despoletou a reflexão? Uma viagem atribulada, aviões perdidos, malas desaparecidas e sobrevivência durante quatro dias sem nada, incluindo uma apresentação em congresso com um pólo comprado apressadamente! Em Trivandrum, Kerala, no sul da Índia.


sábado, 16 de abril de 2011

O passeio da tarde em Blatna

A menina vai pela mão. Passa pela ponte sobre o fosso, olha brevemente para a torre branca quadrada que se levanta bem alta, com um reticulado de traves negras na parte superior, passa as portas sob o pequeno túnel e entra no pátio do castelo, que atravessa em pequenos passos sem olhar as construções brancas e amarelas, bem renovadas, nem a alta ala final, escalavrada.
Ela já só vê o campo atrás, com pequenos bosquetes de carvalhos e outras árvores despidas, o chão atapetado de folhas secas e de uma erva verde acastanhada. Ela tem um encontro. Sai pelo portão, atravessa uma pequena ponte sobre o fosso, e não precisa de andar muito mais.
Um grupo de gamos aproxima-se. Várias fêmeas mostram o grafismo sugestivo do rabo, enquadradas por dois machos, maiores, de hastes floreadas, a controlar.
A menina dá-lhes comida. Ali ficam, a mãe e a menina, rodeadas pelos bichos neste encontro repetido.
Depois regressam, pelo mesmo caminho. À saída, no fosso, ainda atira as últimas migalhas a uns patos que também se aproximam.
Depois sobem, passam a estátua da Madona, viram para a porta sob a torre no topo da praça, atravessam o terreno atrás da igreja e desaparecem por um dos lados.





21 de Março de 2011

Fim de tarde medieval em Zvirkov

A albufeira de Orlik serpenteia entre as encostas arborizadas da Boémia ocidental. Neste fim de inverno ainda se vêem placas de gelo que quebram os reflexos das árvores na superfície plácida. Os pinheiros e os espruces fazem uma mancha escura nas faldas a toda a volta, mas nas partes mais baixas, junto à água, são sobretudo os castanhos dos troncos despidos das folhosas que sobressaem. Em alguns sítios, uma percepção de manchas avermelhadas indica já a emergência de novos gomos.



É aqui que se ergue, numa península estreita, um burgo medieval murado, com torre, igreja, casa senhorial e várias construções em pátios sucessivos. Mais uma vez parecia estar-se numa das histórias de princesas encerradas em torres e de cavaleiros valorosos. Estava uma luz suave de fim de tarde, não havia ninguém. No segundo pátio, um som de pancadas em madeira sobressaltou-me: quem estará preso a pedir libertação? Tratava-se de um operário a martelar o telhado na preparação da época de invasão das hordas de turistas.



21 de Março de 2011

Águas românticas em Marienbad

Marianska Lanske é para nós a Marienbad do filme de Resnais, de quem já ninguém se lembra bem, e de impressões deixadas por leituras de uma época de damas e cavalheiros, aristocratas e intelectuais, e de uma Europa central poderosa.
Marienbad parece um pouco irreal, com ar de conto de fadas, nas suas casas românticas de cores pastel, ladeando parques de grandes árvores, agora despidas mas que se imaginam verdejantes. As colunatas, construídas em torno de uma nascente ou das suas fontes, ponto de encontro central da vida social, simbolizam a cidade e o seu propósito.
Tudo começou com as instalações termais, que abriram ao público em 1898, aproveitando várias nascentes de água com diferentes composição e, portanto, benéficas para maleitas várias de digestão, rins, circulação e diabetes, não esquecendo o stress. Por aqui passaram músicos, escritores, políticos, reis, czares e imperadores. Churchill ainda tem um bar com o seu nome.
Hoje, nesta época ainda antes de época, os visitantes eram principalmente seniores, com predominância feminina, que se viam a beber a água em pequenos goles. E parece tradição fazê-lo por uns jarros achatados com asa que é também o canudo de bebida, de gosto romântico muito popular.
Também bebi a água das várias fontes: uma mais ou menos insípida, outra com muito magnésio e salobra até ao enjoo, outra gasosa e com muito calcário. Esta até a repeti, depois de ter lido que é adequada contra a osteoporose!






20 de Março de 2011

sábado, 2 de abril de 2011

Sem rosto

Quase tropecei nele, a andar de olhar levantado para as decorações das fachadas. A mancha escura no calçado de pedras cinzentas era afinal um homem de joelhos, prostrado para a frente, os antebraços apoiados e dirigidos para um barrete virado à espera de moedas. A cara estava escondida e todo o corpo imóvel.
Depois encontrei outros, sempre esta posição rasteira e sem rosto. Um cão, também imóvel, acompanhava uma destas figuras prostradas.
De algum modo assemelham-se às estátuas sombrias de santos a recordar os tempos medievais de Praga. Ou à escultura inquietante Il Commendatore, em homenagem a Mozart, à entrada do teatro onde se estreou, a 29 de Outubro de 1787, o Don Giovanni.









20 de Março de 2011

Expresso, cappuccino, chocolate (em Praga)

As cidades são também os seus cafés. A memória de um expresso, capuccino ou chocolate pode perdurar tanto ou mais do que a de uma catedral ou museu, talvez porque à imagem se associam pedaços de vida.
De Praga, ficam três cafés.

O café da Casa Municipal, uma enorme sala rectangular, com grandes janelas para a rua, que logo desde a rua permitem adivinhar o ambiente. Os lustres pendem, luminosos, reflectindo o brilho nos espelhos. Está-se no reino da Arte Nova, nas linhas e nas decorações, nos painéis, criando um ambiente de cores pastel, sorrisos nos olhos e alegria despreocupada, a lembrar as jovens nínficas de Mucha. Nesta hora ao fim da noite, são poucas já as pessoas, alguns casais, duas amigas, uma ou outro solitário.


O Café Oriental é cubista, no 1º andar da casa cubista da Madona Negra, bem perto. Por cima está o museu cubista, com planos de arquitectura, mobiliário, pinturas e escultura. Em baixo, a loja com uma delícia de objectos a recriar a época. No café, ao fim da tarde, tomou-se o melhor chocolate de Praga. Aqui são os triângulos que imperam, as linhas direitas mas quebradas em ângulos agudos, a desconstrução do plano único por várias faces. O estilo está nas mesas e nos candeeiros, no bengaleiro e nas chávenas. Associo-o a ruptura, de vanguarda dos anos 20 em que a transgressão se fazia em grupos de artistas e pensadores.


O Café Slavia fica em frente do Teatro Nacional, numa esquina com grandes janelas com vista para o Vltava. Um café urbano, de quem vai ao teatro, ou de conversas entre amigos, ou poiso habitual para ler o jornal da manhã, que integra os diferentes ambientes ao longo do dia. O estilo é aqui um neo-clássico a lembrar senhores burgueses e conversas de intelectuais estabelecidos. Tem um piano que acompanha o fim do dia. Aqui também se come, e bem. A clientela é mais heterogénea, desde os senhores e senhoras de Praga a estrangeiros de todas as idades. Como o jovem chinês que, depois da concordância do pianista, ali esteve a tocar, com ar deliciado e grande maestria.

24 de Março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

Revisiting Travels / Viagens de revisita - Praga 2009-2011

Há lugares onde apetece voltar. Às vezes é para conhecer melhor, quando faltou tempo de passear e conhecer, ou para continuar uma relação com espaços, ambientes ou gentes que se acha ainda incompleta. Mas há também, em alguns casos, apenas o desejo de voltar, de tornar a ver e a estar. A percepção deste desejo nem sempre é clara, muitas vezes mantendo-se latente até uma oportunidade o fazer emergir.
Foi este o caso de Praga. Pela primeira vez em 2009, Praga foi um amor imediato, de fascínio pelas casas, ruas e praças. Árvores floridas na primavera, imagens de fachadas de cores suaves, frontões recortados e muitas decorações, um cardápio de estilos arquitectónicos. Ao sentimento de bem-estar em cafés, restaurantes, bancos de rua, juntou-se uma magia difusa de um passado de conhecimentos e artes diferentes e intensos. As torres das igrejas marcam o horizonte, as estátuas erguem-se por todo o lado e alguns dos santos têm nomes estranhos, os concertos parecem fazer parte da cidade.
Karlúv most, a ponte Calos,é um marco, a unir a cidade baixa com a colina. Se nos dias radiosos, ela é um mar de gente e uma tracção turística obrigatória, de realejos, bugigangas e retratos, à noite ou à chuva, ela fica misteriosa, deixando entrever o rio e a cidade estendida na bruma. Como agora, nesta viagem de revisita, dois anos depois da primeira.
Lá em cima o castelo. Uma mole maciça de janelas repetidas, em jeito de muralha que barra a vista. Lá dentro, imaginam-se os corredores, os físicos e os dos processos administrativos, as voltas inexplicadas e os becos, a impotência e a compreensão. Kafka deve ter visto as mesmas imagens milhões de vezes, sempre que levantava os olhos para o outro lado. Foi este o sentimento que me ficou do seu Castelo, lido há muitos anos, e que agora revisitei. E que a estátua em sua homenagem também transmite, apesar de não a compreender bem!
No meu imaginário vai também ficar associado o vento cortante dos pátios do complexo.
Praga, 18 de Março de 2011
Helena





quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Tejo em Ródão

A passagem do Tejo em Ródão era, num passado não muito distante, um marco no percurso de Lisboa às Beiras. Percorriam-se, então, ambientes e morfologias agora esquecidas pelo trajecto na auto-estrada onde as descidas e subidas dos vales,que se desenrolavam em dezenas de curva / contra curva por km, se galgam nos grandes viadutos. Cruzavam-se paisagens e locais a que se associavam acontecimentos e histórias que se vão esfumando do imaginário colectivo. Em tarde de outono luminosa a tentação de espreitar as Portas do Ródão e percorrer a estrada que, de junto à ponte sobre o Tejo, trepa encosta acima acompanhando o percurso do rio. No alto, o caminho para o Castelo Roqueiro, plantado no maciço rochoso.


 Da plataforma sobre as Portas ou do janelão da Torre de Menagem, o olhar mostra, para montante, o grande rio, manso como um lago que o estrangulamento do desfiladeiro lhe impõe. Para jusante o rio corre em meandros à volta de ínsuas arenosas. As margens perdem, progressivamente, o seu carácter escarpado alargando-se em encostas arredondadas salpicadas pelos maciços rochosos que emergem da vegetação de estevas e folhosas ainda amarelas neste final de Outono.

   
E vem à memória a descrição de Hipólito Raposo “São como ombreiras mutiladas dum arco de triunfo que um capricho plutónico quisesse ter ali deixado à honra do grande rio, nas primeiras auroras do mundo...”

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Turquia, dia 3: Formas bizarras e o mercado colorido

A Capadócia é inesgotável em rochas de formas bizarras e era obrigatório ver de perto as “três irmãs” que têm honras de capa de livro e presença garantida nos postais ilustrados. Há outros pedregulhos de formas que, com menos ou mais imaginação, se assemelham a entidades tão díspares como um camelo ou a virgem Maria!  
Nas encostas dos vales ravinados, distinguem-se os estratos coloridos com as riscas rosadas dos sedimentos ferrosos logo seguidas das camadas dum amarelo esverdungado sulfuroso.
O colorido do dia esperava-nos, porém, no mercado da pequena cidade de Urgup, particularmente animado nas vésperas do “feriado do sacrifício”, que se celebra por estes dias. Lá estavam as ovelhas que serão sacrificadas, mas também os legumes e as frutas com a frescura e a arrumação que revela que o oriente é aqui ao lado. A banca das especiarias, da canela ao açafrão, e dos chás, de barbas de milho ou lúcia-lima, é um consolo de cor e aromas. 
No meio deste colorido dois rapazes servem o chá e fascinam-me os rostos de quem vende e compra. Fotografias tiradas à socapa ou de “modelos” que pousaram de boa vontade, mostram alguns rostos da Capadócia.

Nevsevir, Capadócia, 13 de Novembro de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A vingança das espoliadas (um conto moral)

As planícies da Panfília, em redor de Antalya, com o mar em frente e as montanhas de Taurus a separar do planalto da Anatólia, são muito férteis com solo rico, clima ameno e água abundante. São possíveis três culturas anuais e tudo aqui cresce, desde os legumes variados, aos citrinos e outros frutos, à vinha e até ao algodão. Ser agricultor é, portanto, uma actividade rica.
Quando o patriarca da família morre e se faz a divisão das terras pelos herdeiros – muitos, nestas famílias de 6, 8 ou mais filhos – muito naturalmente os varões encabeçam a fila e a eles são distribuídas as melhores terras agrícolas, situadas bem no aconchego da planície. Às filhas cabe a orla do mar, na falésia, rochas e pedras sem valor.
Chegam os anos da procura do sol, e o desenvolvimento do turismo alemão, nórdico, oriental e … português!, faz disparar a construção de hotéis e casas de férias, desejavelmente bem localizados com vista, ou pelo menos proximidade, do azul turquesa mediterrânico. Como (quase) sempre, resultou uma amálgama de edificações e uma urbanização espalhada a desfear a paisagem, sobressaindo o estilo arquitectónico consumista, mesmo tratando-se dos inúmeros 5 estrelas.
As filhas espoliadas são hoje ricas…
Advertência moral: novas ricas mães, não deixem que o futuro das vossas filhas fique ao sabor de um imponderável acaso!

Antalaya, 16. Nov.2010


sábado, 13 de novembro de 2010

Turquia, dia 2: Balões e chaminés de fadas

Era noite cerrada quando partimos a caminho da aventura de balão. Somos recebidos com um chá quente, reconfortante. Perto, três enormes balões, enormes vistos assim de perto e no chão, começam a inchar. Quando a madrugada clareia descobre-se que, a toda a volta, do meio das formações rochosas de formas extravagantes, aparecem cores garridas de dezenas de balões preparando-se para voar.


Em cada barquinha, uma enorme cesta de vime, embarcamos 25. Levanta-se voo suavemente, num silêncio só quebrado pelas exclamações dos viajantes e pelo “bufar” dos quatro queimadores que aquecem o ar que nos tira do chão.
Sobe-se a 1500 m de altitude, voa-se num vale entre as formações rochosas ravinadas, às vezes rasando as encostas, as copas das árvores e os “chapéus” das chaminés de fada.

Clareia mais e o piloto anuncia: “Sun rising”. Agora, com mais luz, vêem-se a toda a volta as dezenas de balões que todas as madrugadas, povoam os céus da Capadócia.

A experiência acaba com a aterragem, algures, num prado plano onde nos espera o jeep com um atrelado onde pousou a barquinha, operação final ajudada pelos viajantes aos pulinhos.

Depois, ao longo do dia, viram-se as chaminés de fada, as rochas com casas e capelas escavadas e os vales pintalgados dos damasqueiros de folha amarela de todos os ângulos e perspectivas, passeando à volta das colunas rochosas ou trepando as escadas e encostas empinadas. Mas nada é tão especial como a visão, lá do alto, à luz dum sol acabado de nascer.

Nevsevir, Capadócia, 12 de Novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pináculos, colunas e árvores amarelas

Há imagens, ou impressões de imagens, que sabemos que vão ficar. Para além da viagem e da sua história integrada, do álbum organizado de memórias e saberes, acontecem farrapos gráficos, certamente associados a algumas emoções pretéritas, que se erguem do tecido da recordação.
Como as colunas de pedra, quais pilares de catedral, espetadas nos vales à volta de Goreme, singulares ou agrupadas. Um ar de outro mundo, ou algo mágico. São as chaminés das fadas, que viviam sob o solo. Há torres e cones encabeçados por chapéus, em equilíbrio improvável, as formações em cogumelos como assim lhes chamam.
A história é também interessante, um exemplo da mudança e de ciência dos materiais, que se pode contar como história de embalar. Há muitos muitos anos, as erupções de dois vulcões cobriram a terra desta região com uma camada fofa de cinzas e lava, um tufo vulcânico, que formou uma planície extensa. Em algumas zonas, ou em determinados períodos, a lava chegou espessa das profundidades dos vulcões e formou camadas de basalto resistente e denso. Os vulcões extinguiram-se. Mas vieram ventos e águas, diferenças térmicas de dia e noite, de verão e inverno, e sismos que fracturaram, escavaram ravinas, fizeram vales e canyons. O tufo frágil erodiu-se rapidamente, deixando montes ou cones arredondados ou pontiagudos. Mas quando eram encimados por basalto, este não só resistiu mais, como promoveu a compactação das camadas por baixo e lhes aumentou a resistência à erosão. Ficam assim colunas de tufo topeadas de lajes de basalto, claramente mais escuras do que o castanho claro ou esbranquiçado do tufo.
Não pude deixar de pensar nas torres e telhados feitos por Gaudi nas suas casas de fadas. E a Sagrada Família, com as suas torres cónicas esburacadas também parece inspirada nos montes escavados com conventos e igrejas. Mas essa é já outra história…
O amarelo das árvores, neste fim de Outono com sol de S. Martinho, associa-se indelevelmente à imagem das colunas de pedra e dos vales. O esguio de grupos de choupos ajuda a marcar as verticais, o arredondado das copas de outras folhosas mais baixas faz o contraponto. O brilho dos amarelos, por vezes com algum castanho ou vermelho, dá um toque de alegria.

Goreme, 12.Nov. 2010



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Turquia, dia 1: de Antalya a Nevsevir, Capadócia

Saiu-se do hotel pela manhã. Ao longe a cordilheira do Taurus que limita a Norte a planície costeira de Antalya. Terra boa, sol mediterrânico e água dão três colheitas por ano. Muitas estufas e os campos de algodão onde mulheres trabalham, de lenço cobrindo-lhes a cabeça ou porque o sol é inclemente, ou por ditame da sua crença religiosa.

Ao lado da estrada, ainda na planície, a cidade de Manvagat. Ao longe, a Mesquita, e junto à estrada as construções modernas, de gosto aceitável e bom aspecto, todas equipadas com painéis solares e seus depósitos que criam uma “decoração” peculiar em todas as coberturas.


A subida da montanha começa entre barreiras de sedimentos enrugados e florestas de pinheiros salpicados de folhosas que dão À paisagem o colorido alaranjado do Outono. Os vales, organizados em terraços, tanto podiam ser aqui como nos contrafortes dos Himalaias. Mais alto as formações cársicas dominam, com rochas fracturadas e erodidas e a floresta é de cedros, ainda presentes no ponto mais alto do percurso, a 1825 m. Mais ao longe, os cumes, arredondados pela erosão e totalmente despidos de vegetação.
Formações com origem em vulcões há milénios extintos fazem a separação com a Capadócia.
Para além do Taurus, a planície de Konia, a perder de vista. Entrámos na Rota da Seda com visita ao Caravanserai Zazadin Hani. Local de abrigo e descanso dos mercadores de outros tempos, agora preservados para visita ou transformados em restaurantes ou mercados.
 
É noite e as primeiras impressões serão ao nascer do sol, de balão.
Nevsevir, Capadócia, 11 de Novembro de 2010

Group-in-Group travel

Nos meus pensamentos sobre viagens, cunhei este conceito, a viagem do grupo-no-grupo, o group-in group travel. Trata-se de uma primeira experiência cujos resultados e justeza das elucubrações se verão ao longo desta semana.
Peguemos num avião, fora das companhias conhecidas, talvez com estrelas no rabo. Bem empacotados cabem uns duzentos, que continuarão reunidos ao longo de transbordos, hotéis, autocarros, visitas e quejandos. Que diferenças com outras viagens? A simultaneidade dos acontecimentos e os ajuntamentos correspondentes, um pano de fundo de exclamações e interpelações uns quantos decibéis acima, uma homogeneidade da população.
Não parece para nós! Pois não, mas muito muda quando integramos um grupo menor neste grande grupo. As palavras são nossas, a procura de imagens e emoções é partilhada, a envolvente apenas dá uma formatação aos dias. Como em meio exótico, não se deve lutar contra ele ou as suas diferenças, apenas deverá haver adaptação. Ou seja, trata-se de estabelecer a fronteira do sistema.

Antalya, 10.Nov.2010

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Douro em tons de fogo

Em dia que começou chuvoso partimos a caminho do Douro. Passagem pelas cidades fortificadas que se defendiam do invasor castelhano com muros e azeite a ferver. Primeiro Trancoso, depois, com vento agreste, Penedono e o seu castelinho saído directamente dos romances de cavalaria.

Para norte, a paisagem vai mudando, o cinzento do granito é substituído pelo vermelho do xisto ferroso e das vinhas incendiadas de cores de Outono.


Debaixo de um céu onde nuvens escuras coam o sol, passa-se São João da Pesqueira e sobe-se o ermo de São Salvador do Mundo, com a via sacra de nove capelinhas encarrapitadas monte acima.

Lá em baixo, o Douro, encaixado nas falésias, ali domesticado pela barragem da Valeira no local onde existiu o Cachão, local de naufrágio célebre onde o Forrester se afogou e a Ferreirinha foi salva, dizem, pelo balão das suas saias.

A toda a volta, as vinhas arrumadas em linhas de traçado improvável, com as folhas de cores do laranja ao rubro, antes de caírem à terra para reentrar no ciclo vital que, na primavera, as pintará de verde luxuriante.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

E se da janela do castelo uma trança de princesa

Nenhum de nós conhecia Penedono. E foi, portanto, uma surpresa encontrar o castelo, bem no cimo do monte, implantado a coroar rochas ciclópicas. Como num conto de Rapunzel ou outras princesas, com torres elevadas, matacães a sobressair, janelas lá no alto, a deixar imaginar reclusões forçadas e cavaleiros salvadores. O caminho a subir leva à porta de entrada da muralha baixa, depois um pequeno percurso e entra-se no castelo sob um arco quebrado. Agora vazio, heptágono irregular, teria tido um piso intermédio, algumas escadas ainda lá estão, de outras só as marcas. Sobe-se aos torreões, caminha-se em redor das ameias pelo caminho da ronda. O vento está forte, o estandarte do senhor bate. Na realidade é uma bandeira portuguesa de bordes esfiapados.

O castelo é monumento nacional, exemplo da arquitectura militar gótica. Começou árabe e tem referência antiga do ano de 960, que chama a estas terras Pena do Dono.

Guarda, 31 de Outubro de 2010