sábado, 16 de abril de 2011

Águas românticas em Marienbad

Marianska Lanske é para nós a Marienbad do filme de Resnais, de quem já ninguém se lembra bem, e de impressões deixadas por leituras de uma época de damas e cavalheiros, aristocratas e intelectuais, e de uma Europa central poderosa.
Marienbad parece um pouco irreal, com ar de conto de fadas, nas suas casas românticas de cores pastel, ladeando parques de grandes árvores, agora despidas mas que se imaginam verdejantes. As colunatas, construídas em torno de uma nascente ou das suas fontes, ponto de encontro central da vida social, simbolizam a cidade e o seu propósito.
Tudo começou com as instalações termais, que abriram ao público em 1898, aproveitando várias nascentes de água com diferentes composição e, portanto, benéficas para maleitas várias de digestão, rins, circulação e diabetes, não esquecendo o stress. Por aqui passaram músicos, escritores, políticos, reis, czares e imperadores. Churchill ainda tem um bar com o seu nome.
Hoje, nesta época ainda antes de época, os visitantes eram principalmente seniores, com predominância feminina, que se viam a beber a água em pequenos goles. E parece tradição fazê-lo por uns jarros achatados com asa que é também o canudo de bebida, de gosto romântico muito popular.
Também bebi a água das várias fontes: uma mais ou menos insípida, outra com muito magnésio e salobra até ao enjoo, outra gasosa e com muito calcário. Esta até a repeti, depois de ter lido que é adequada contra a osteoporose!






20 de Março de 2011

sábado, 2 de abril de 2011

Sem rosto

Quase tropecei nele, a andar de olhar levantado para as decorações das fachadas. A mancha escura no calçado de pedras cinzentas era afinal um homem de joelhos, prostrado para a frente, os antebraços apoiados e dirigidos para um barrete virado à espera de moedas. A cara estava escondida e todo o corpo imóvel.
Depois encontrei outros, sempre esta posição rasteira e sem rosto. Um cão, também imóvel, acompanhava uma destas figuras prostradas.
De algum modo assemelham-se às estátuas sombrias de santos a recordar os tempos medievais de Praga. Ou à escultura inquietante Il Commendatore, em homenagem a Mozart, à entrada do teatro onde se estreou, a 29 de Outubro de 1787, o Don Giovanni.









20 de Março de 2011

Expresso, cappuccino, chocolate (em Praga)

As cidades são também os seus cafés. A memória de um expresso, capuccino ou chocolate pode perdurar tanto ou mais do que a de uma catedral ou museu, talvez porque à imagem se associam pedaços de vida.
De Praga, ficam três cafés.

O café da Casa Municipal, uma enorme sala rectangular, com grandes janelas para a rua, que logo desde a rua permitem adivinhar o ambiente. Os lustres pendem, luminosos, reflectindo o brilho nos espelhos. Está-se no reino da Arte Nova, nas linhas e nas decorações, nos painéis, criando um ambiente de cores pastel, sorrisos nos olhos e alegria despreocupada, a lembrar as jovens nínficas de Mucha. Nesta hora ao fim da noite, são poucas já as pessoas, alguns casais, duas amigas, uma ou outro solitário.


O Café Oriental é cubista, no 1º andar da casa cubista da Madona Negra, bem perto. Por cima está o museu cubista, com planos de arquitectura, mobiliário, pinturas e escultura. Em baixo, a loja com uma delícia de objectos a recriar a época. No café, ao fim da tarde, tomou-se o melhor chocolate de Praga. Aqui são os triângulos que imperam, as linhas direitas mas quebradas em ângulos agudos, a desconstrução do plano único por várias faces. O estilo está nas mesas e nos candeeiros, no bengaleiro e nas chávenas. Associo-o a ruptura, de vanguarda dos anos 20 em que a transgressão se fazia em grupos de artistas e pensadores.


O Café Slavia fica em frente do Teatro Nacional, numa esquina com grandes janelas com vista para o Vltava. Um café urbano, de quem vai ao teatro, ou de conversas entre amigos, ou poiso habitual para ler o jornal da manhã, que integra os diferentes ambientes ao longo do dia. O estilo é aqui um neo-clássico a lembrar senhores burgueses e conversas de intelectuais estabelecidos. Tem um piano que acompanha o fim do dia. Aqui também se come, e bem. A clientela é mais heterogénea, desde os senhores e senhoras de Praga a estrangeiros de todas as idades. Como o jovem chinês que, depois da concordância do pianista, ali esteve a tocar, com ar deliciado e grande maestria.

24 de Março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

Revisiting Travels / Viagens de revisita - Praga 2009-2011

Há lugares onde apetece voltar. Às vezes é para conhecer melhor, quando faltou tempo de passear e conhecer, ou para continuar uma relação com espaços, ambientes ou gentes que se acha ainda incompleta. Mas há também, em alguns casos, apenas o desejo de voltar, de tornar a ver e a estar. A percepção deste desejo nem sempre é clara, muitas vezes mantendo-se latente até uma oportunidade o fazer emergir.
Foi este o caso de Praga. Pela primeira vez em 2009, Praga foi um amor imediato, de fascínio pelas casas, ruas e praças. Árvores floridas na primavera, imagens de fachadas de cores suaves, frontões recortados e muitas decorações, um cardápio de estilos arquitectónicos. Ao sentimento de bem-estar em cafés, restaurantes, bancos de rua, juntou-se uma magia difusa de um passado de conhecimentos e artes diferentes e intensos. As torres das igrejas marcam o horizonte, as estátuas erguem-se por todo o lado e alguns dos santos têm nomes estranhos, os concertos parecem fazer parte da cidade.
Karlúv most, a ponte Calos,é um marco, a unir a cidade baixa com a colina. Se nos dias radiosos, ela é um mar de gente e uma tracção turística obrigatória, de realejos, bugigangas e retratos, à noite ou à chuva, ela fica misteriosa, deixando entrever o rio e a cidade estendida na bruma. Como agora, nesta viagem de revisita, dois anos depois da primeira.
Lá em cima o castelo. Uma mole maciça de janelas repetidas, em jeito de muralha que barra a vista. Lá dentro, imaginam-se os corredores, os físicos e os dos processos administrativos, as voltas inexplicadas e os becos, a impotência e a compreensão. Kafka deve ter visto as mesmas imagens milhões de vezes, sempre que levantava os olhos para o outro lado. Foi este o sentimento que me ficou do seu Castelo, lido há muitos anos, e que agora revisitei. E que a estátua em sua homenagem também transmite, apesar de não a compreender bem!
No meu imaginário vai também ficar associado o vento cortante dos pátios do complexo.
Praga, 18 de Março de 2011
Helena





quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Tejo em Ródão

A passagem do Tejo em Ródão era, num passado não muito distante, um marco no percurso de Lisboa às Beiras. Percorriam-se, então, ambientes e morfologias agora esquecidas pelo trajecto na auto-estrada onde as descidas e subidas dos vales,que se desenrolavam em dezenas de curva / contra curva por km, se galgam nos grandes viadutos. Cruzavam-se paisagens e locais a que se associavam acontecimentos e histórias que se vão esfumando do imaginário colectivo. Em tarde de outono luminosa a tentação de espreitar as Portas do Ródão e percorrer a estrada que, de junto à ponte sobre o Tejo, trepa encosta acima acompanhando o percurso do rio. No alto, o caminho para o Castelo Roqueiro, plantado no maciço rochoso.


 Da plataforma sobre as Portas ou do janelão da Torre de Menagem, o olhar mostra, para montante, o grande rio, manso como um lago que o estrangulamento do desfiladeiro lhe impõe. Para jusante o rio corre em meandros à volta de ínsuas arenosas. As margens perdem, progressivamente, o seu carácter escarpado alargando-se em encostas arredondadas salpicadas pelos maciços rochosos que emergem da vegetação de estevas e folhosas ainda amarelas neste final de Outono.

   
E vem à memória a descrição de Hipólito Raposo “São como ombreiras mutiladas dum arco de triunfo que um capricho plutónico quisesse ter ali deixado à honra do grande rio, nas primeiras auroras do mundo...”

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Turquia, dia 3: Formas bizarras e o mercado colorido

A Capadócia é inesgotável em rochas de formas bizarras e era obrigatório ver de perto as “três irmãs” que têm honras de capa de livro e presença garantida nos postais ilustrados. Há outros pedregulhos de formas que, com menos ou mais imaginação, se assemelham a entidades tão díspares como um camelo ou a virgem Maria!  
Nas encostas dos vales ravinados, distinguem-se os estratos coloridos com as riscas rosadas dos sedimentos ferrosos logo seguidas das camadas dum amarelo esverdungado sulfuroso.
O colorido do dia esperava-nos, porém, no mercado da pequena cidade de Urgup, particularmente animado nas vésperas do “feriado do sacrifício”, que se celebra por estes dias. Lá estavam as ovelhas que serão sacrificadas, mas também os legumes e as frutas com a frescura e a arrumação que revela que o oriente é aqui ao lado. A banca das especiarias, da canela ao açafrão, e dos chás, de barbas de milho ou lúcia-lima, é um consolo de cor e aromas. 
No meio deste colorido dois rapazes servem o chá e fascinam-me os rostos de quem vende e compra. Fotografias tiradas à socapa ou de “modelos” que pousaram de boa vontade, mostram alguns rostos da Capadócia.

Nevsevir, Capadócia, 13 de Novembro de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A vingança das espoliadas (um conto moral)

As planícies da Panfília, em redor de Antalya, com o mar em frente e as montanhas de Taurus a separar do planalto da Anatólia, são muito férteis com solo rico, clima ameno e água abundante. São possíveis três culturas anuais e tudo aqui cresce, desde os legumes variados, aos citrinos e outros frutos, à vinha e até ao algodão. Ser agricultor é, portanto, uma actividade rica.
Quando o patriarca da família morre e se faz a divisão das terras pelos herdeiros – muitos, nestas famílias de 6, 8 ou mais filhos – muito naturalmente os varões encabeçam a fila e a eles são distribuídas as melhores terras agrícolas, situadas bem no aconchego da planície. Às filhas cabe a orla do mar, na falésia, rochas e pedras sem valor.
Chegam os anos da procura do sol, e o desenvolvimento do turismo alemão, nórdico, oriental e … português!, faz disparar a construção de hotéis e casas de férias, desejavelmente bem localizados com vista, ou pelo menos proximidade, do azul turquesa mediterrânico. Como (quase) sempre, resultou uma amálgama de edificações e uma urbanização espalhada a desfear a paisagem, sobressaindo o estilo arquitectónico consumista, mesmo tratando-se dos inúmeros 5 estrelas.
As filhas espoliadas são hoje ricas…
Advertência moral: novas ricas mães, não deixem que o futuro das vossas filhas fique ao sabor de um imponderável acaso!

Antalaya, 16. Nov.2010