Nenhum de nós conhecia Penedono. E foi, portanto, uma surpresa encontrar o castelo, bem no cimo do monte, implantado a coroar rochas ciclópicas. Como num conto de Rapunzel ou outras princesas, com torres elevadas, matacães a sobressair, janelas lá no alto, a deixar imaginar reclusões forçadas e cavaleiros salvadores. O caminho a subir leva à porta de entrada da muralha baixa, depois um pequeno percurso e entra-se no castelo sob um arco quebrado. Agora vazio, heptágono irregular, teria tido um piso intermédio, algumas escadas ainda lá estão, de outras só as marcas. Sobe-se aos torreões, caminha-se em redor das ameias pelo caminho da ronda. O vento está forte, o estandarte do senhor bate. Na realidade é uma bandeira portuguesa de bordes esfiapados.
O castelo é monumento nacional, exemplo da arquitectura militar gótica. Começou árabe e tem referência antiga do ano de 960, que chama a estas terras Pena do Dono.
Guarda, 31 de Outubro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Áleas de espinhos
Nunca tinha encontrado fiadas de ceibas a ladear ruas ou caminhos. Foi aqui em Palermo que as vi, primeiro na Universidade, a ladear a rua principal. Depois no Orto Botanico, em fiadas ao longo de vários caminhos e na Villa Giulia, o jardim mesmo ao lado, a fazer um xadrez num dos cantos.
Têm uma imagem forte. Em primeiro lugar fica na memória o seu tronco barrigudo, como um sempre-em-pé estranho, mesmo se algumas são mais ou menos cilíndricas. Depois os espinhos, fortes e pontiagudos, mais numas do que noutras, e uma casca muitas vezes estriada de verde fotosintético. As flores vistosas, rosas ou brancas, a cair em tapetes garridos. Os frutos são grandes e abrem numa bola de fios sedosos.
Ceiba speciosa, o palo borracho que encontrámos em Buenos Aires, também chamada barriguda, paineira ou kapok, a silk floss tree já teve o nome científico de Chorisia speciosa (é ainda assim que está nas tabuletas no Orto). Também é conhecida como enchimento de almofadas, embora seja outra espécie, a Ceiba pentandra, a verdadeiramente considerada sumaúma.
Palermo, 24.Out.2010


Têm uma imagem forte. Em primeiro lugar fica na memória o seu tronco barrigudo, como um sempre-em-pé estranho, mesmo se algumas são mais ou menos cilíndricas. Depois os espinhos, fortes e pontiagudos, mais numas do que noutras, e uma casca muitas vezes estriada de verde fotosintético. As flores vistosas, rosas ou brancas, a cair em tapetes garridos. Os frutos são grandes e abrem numa bola de fios sedosos.
Ceiba speciosa, o palo borracho que encontrámos em Buenos Aires, também chamada barriguda, paineira ou kapok, a silk floss tree já teve o nome científico de Chorisia speciosa (é ainda assim que está nas tabuletas no Orto). Também é conhecida como enchimento de almofadas, embora seja outra espécie, a Ceiba pentandra, a verdadeiramente considerada sumaúma.
Palermo, 24.Out.2010


sábado, 23 de outubro de 2010
Igrejas igrejas igrejas!
São muitas as chiesas de Palermo! Nas ruas, de um lado e outro, por vezes a pouca distância, ao virar da esquina, nos becos e nas praças. Às vezes soltas, como a Chiesa di San Giorgio dei Genovesi, em terreno aberto junto ao Porto, singela.
Misturam-se também as arquitecturas, fruto da diversidade da ocupação histórica da cidade. O mapa turístico da cidade divide mesmo os percursos por período: árabe-normando, gótico-renascimento, séc. XVII e barroco, séc XVIII, séc. XIX e arte nova.
Na memória ficam só algumas. Pela surpresa de a encontrar junto ao porto, graciosa e sóbria, ligeiramente dourada no sol que abria, a renascentista Chiesa di Santa Maria della Catena, um convite a parar nas arcadas da entrada. Ou o pequeno cubo simples com cúpula vermelha, da Chiesa di San Cataldo, a evocar os cavaleiros do Santo Sepulcro. E a catedral, claro, misturando épocas e estilos, com a grande praça a dar espaço e os adolescentes do liceu Vitor Emmanuel ao lado a namorar nos bancos.
Palermo, 23.Out.2010



Misturam-se também as arquitecturas, fruto da diversidade da ocupação histórica da cidade. O mapa turístico da cidade divide mesmo os percursos por período: árabe-normando, gótico-renascimento, séc. XVII e barroco, séc XVIII, séc. XIX e arte nova.
Na memória ficam só algumas. Pela surpresa de a encontrar junto ao porto, graciosa e sóbria, ligeiramente dourada no sol que abria, a renascentista Chiesa di Santa Maria della Catena, um convite a parar nas arcadas da entrada. Ou o pequeno cubo simples com cúpula vermelha, da Chiesa di San Cataldo, a evocar os cavaleiros do Santo Sepulcro. E a catedral, claro, misturando épocas e estilos, com a grande praça a dar espaço e os adolescentes do liceu Vitor Emmanuel ao lado a namorar nos bancos.
Palermo, 23.Out.2010



As ruas traseiras de Palermo
Sem guia para dar prioridade à visita, apenas com um mapa, comecei a volta. E quis o acaso das deambulações que conhecesse as ruas traseiras de Palermo antes do circuito monumental.
Estreitas, muito estreitas, as varandas quase tocando-se, as fachadas esquálidas, um ar de pobreza, mistura e confusão. Nas ruas maiores, uma mistura de gentes, bem visível a proximidade do norte de África e da África mais abaixo. Mas principalmente os sicilianos, ruas de homens, velhos e novos, homens nos cafés e nas esquinas, jogos de cartas, discussões acaloradas nas vielas que parecem ir levar a um tiroteio. Por todo o lado, carros e muitas motoretas, vespas e congéneres.
As varandas correm nas fachadas, roupa em algumas e, em muitas, vasos com plantas e flores. Adivinham-se casas, visões de filme.
Encontrei também mercados de rua, que deixam no fim da tarde um rasto de restos de legumes e caixas vazias. Em algumas das ruas, o estendal das bancas é ao estilo dos souks árabes, vende-se de tudo, desde roupa e sapatos a cortinados ondeando ao vento.
A pouca distância do Palazzo Real, encontrei as cavalariças para os cavalos que fazem os passeios na cidade. A princípio pareceram-me um pequeno bairro da lata, mas aí estava um a ser escovado e, vendo bem, os cubículos até estavam limpos e pareciam funcionais.
Por aqui há casas senhoriais abandonadas, embora ainda graciosas, e igrejas decrépitas mas mostrando o seu passado de renascimento ou barroco.
E passa-me pela cabeça que as cidades continuam a ter dificuldade em fazer viver os seus centros históricos, mantendo a pujança que outrora tiveram, com a diversidade de gentes que as tornaram grandes e mexidas.
Em Palermo, sente-se bem a riqueza dos cruzamentos passados.
Palermo, 23.Out.2010


Estreitas, muito estreitas, as varandas quase tocando-se, as fachadas esquálidas, um ar de pobreza, mistura e confusão. Nas ruas maiores, uma mistura de gentes, bem visível a proximidade do norte de África e da África mais abaixo. Mas principalmente os sicilianos, ruas de homens, velhos e novos, homens nos cafés e nas esquinas, jogos de cartas, discussões acaloradas nas vielas que parecem ir levar a um tiroteio. Por todo o lado, carros e muitas motoretas, vespas e congéneres.
As varandas correm nas fachadas, roupa em algumas e, em muitas, vasos com plantas e flores. Adivinham-se casas, visões de filme.
Encontrei também mercados de rua, que deixam no fim da tarde um rasto de restos de legumes e caixas vazias. Em algumas das ruas, o estendal das bancas é ao estilo dos souks árabes, vende-se de tudo, desde roupa e sapatos a cortinados ondeando ao vento.
A pouca distância do Palazzo Real, encontrei as cavalariças para os cavalos que fazem os passeios na cidade. A princípio pareceram-me um pequeno bairro da lata, mas aí estava um a ser escovado e, vendo bem, os cubículos até estavam limpos e pareciam funcionais.
Por aqui há casas senhoriais abandonadas, embora ainda graciosas, e igrejas decrépitas mas mostrando o seu passado de renascimento ou barroco.
E passa-me pela cabeça que as cidades continuam a ter dificuldade em fazer viver os seus centros históricos, mantendo a pujança que outrora tiveram, com a diversidade de gentes que as tornaram grandes e mexidas.
Em Palermo, sente-se bem a riqueza dos cruzamentos passados.
Palermo, 23.Out.2010


quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Glimpse travels
Há vários tipos de viagens. Falo hoje dos glimpse travels, assim me surgiram, em inglês, as “viagens espreitadelas”, olhares roubados num instante, quiçá inesperado, certamente não programado. Quando ocorrem? No interior de viagens de trabalho, nos acasos de voltas profissionais, uma tarde, um dia livres, voltas soltas sem preparação ou o conhecimento que integra o planeamento de viagens dedicadas. Sem sistematização ou lógica, são fruto do acaso e do tempo, ou também das oportunidades que os próprios eventos oferecem.
Lembro dourados e espelhos dum banquete na esplendorosa sala espanhola do castelo de Praga, um templo grego contra o céu ao pôr do sol em Paestum, a calma suave no fim da tarde no chateau d’Yquem no regresso da recolha das uvas, a emoção dos muralistas mexicanos em Chihuaha e depois na cidade do México, o sortilégio dum comboio a apitar na noite nas faldas do Himalaia.
Ficam assim farrapos, pinceladas, por vezes fortes, que perduram na memória. Não são extrapoláveis para o país ou a cidade (mas quando o são?), representam apenas a surpresa, a emoção e o olhar aberto de um instante, às vezes em cenários que evocam leituras, filmes ou notícias.
Como em Palermo, agora.
Ficou já a chegada no aeroporto de Punta Raisi, um cabo esticado no mar tirreno a cerca de 30 km da cidade. O avião aterra em pista que corre ao longo do mar, as ondas mesmo ali a quebrar em linha paralela, o mar a perder de vista como se se estivesse num fim de terra…
Palermo, 21.Out.2010
Helena
Lembro dourados e espelhos dum banquete na esplendorosa sala espanhola do castelo de Praga, um templo grego contra o céu ao pôr do sol em Paestum, a calma suave no fim da tarde no chateau d’Yquem no regresso da recolha das uvas, a emoção dos muralistas mexicanos em Chihuaha e depois na cidade do México, o sortilégio dum comboio a apitar na noite nas faldas do Himalaia.
Ficam assim farrapos, pinceladas, por vezes fortes, que perduram na memória. Não são extrapoláveis para o país ou a cidade (mas quando o são?), representam apenas a surpresa, a emoção e o olhar aberto de um instante, às vezes em cenários que evocam leituras, filmes ou notícias.
Como em Palermo, agora.
Ficou já a chegada no aeroporto de Punta Raisi, um cabo esticado no mar tirreno a cerca de 30 km da cidade. O avião aterra em pista que corre ao longo do mar, as ondas mesmo ali a quebrar em linha paralela, o mar a perder de vista como se se estivesse num fim de terra…
Palermo, 21.Out.2010
Helena
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Volta à Chapada: Pôr-do-sol no Pai Inácio
O Morro do Pai Inácio é um grande cilindro irregular de quartzito cinzento, mais ou menos plano no topo, que se eleva a 233 m sobre um sopé em faldas verdes. Está isolado na paisagem, de modo que permite olhar a toda a volta, nomeando morros e vales. Ali estão os Morros do Testemunho, a envolver o Vale do Cercado, que acompanharam a evolução geológica da região, de mar a rio, até ao presente. Do outro lado, os morros dos Três Irmãos, em sucessão, o da Nascente do Rio Mucugêzinho, o do Rio Sossego, terminando com o maior da Chapada, o Morrão. Cá em baixo passa a BR, marco do mundo de hoje, com o seu desfile ininterrupto de caminhões.
No topo do morro está uma grande cruz metálica e aí se conta a história. Inácio era um “negão” bonito e ardiloso, filho de pai de santo, conhecedor de algumas magias, em amores correspondidos com a filha menina do coronel Horácio de Matos. Perseguido pelos jagunços, esconde-se no morro, mas uma fogueira denuncia-o. Prefere não ser preso e, da borda, soltando um grito, salta. Mas havia um recesso escondido por baixo. Como demonstrou um dos guias, saltando também para o vazio. A lenda diz que Inácio pegou a menina, fugiram, e ainda hoje são avistados em Salvador.
Termina-se o passeio a olhar o pôr-do-sol. Logo que o sol se esconde, desce-se rápido pois escurece depressa. Fechou-se a volta à Chapada.


No topo do morro está uma grande cruz metálica e aí se conta a história. Inácio era um “negão” bonito e ardiloso, filho de pai de santo, conhecedor de algumas magias, em amores correspondidos com a filha menina do coronel Horácio de Matos. Perseguido pelos jagunços, esconde-se no morro, mas uma fogueira denuncia-o. Prefere não ser preso e, da borda, soltando um grito, salta. Mas havia um recesso escondido por baixo. Como demonstrou um dos guias, saltando também para o vazio. A lenda diz que Inácio pegou a menina, fugiram, e ainda hoje são avistados em Salvador.
Termina-se o passeio a olhar o pôr-do-sol. Logo que o sol se esconde, desce-se rápido pois escurece depressa. Fechou-se a volta à Chapada.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010
O que o ecoturismo pode fazer por uma região deprimida
Há 20 anos, a Chapada Diamantina estava numa daquelas situações de fim de ciclo que as regiões de monocultura (aqui eram os diamantes) conhecem periodicamente e de que, a cada vez, parece muito difícil sair. Na esteira da Conferência do Rio (1992), houve a percepção de que a Natureza encerrava um potencial susceptível de criar novas oportunidades, até aí inexploradas. Pelo que percebemos, algumas ONGA que reuniam juventude local terão contribuído, à sua maneira, para empurrar as coisas no sentido certo. O que viemos encontrar em 2010 é uma região em estado de puro optimismo (na linha do estado geral que, felizmente, assola o Brasil por estes tempos), uma região em que as pessoas transparecem felicidade, simpatia e confiança.
Tudo centrado no turismo de Natureza, que traz, durante o ano todo, um fluxo regular de visitantes e alimenta um sem número de empresas e profissionais: guias, carregadores, condutores de veículos todo-o-terreno, pousadas para todas as bolsas, “nativos” (como são chamados os locais que habitam pelos montes fora e acolhem nas suas casas os caminhantes em jornadas mais longas nos vales e planaltos), restaurantes (alguns bem sofisticados na comida regional que servem), bares e lojas de artigos de alimentação, lojas de souvenirs, pequenos museus locais e ateliers de artistas. Para se ter uma ideia, a Venturas e Aventuras, empresa sedeada em Lençois que nos organizou e guiou na estadia na Chapada, tem cerca de 15 guias locais (além de carregadores e condutores). A empresa Bicho do Mato, que nos guiou na visita ao Buracão (que a Lena descreve noutro post), sedeada numa pequena localidade, emprega cerca de uma dúzia de guias locais. Tudo muito profissional, partidas e chegadas a horas, organização sem falhas, simpatia e colaboração sempre presentes.
Há 20 anos atrás estava em marcha um novo êxodo daqueles que assolam periodicamente o interior do Brasil desde há dois séculos. Hoje existe uma população jovem, activa e confiante. Percebe-se que a consciência da Natureza como recurso colectivo é elevada. Pequenos sinais: a recolha de lixo separativo em todo o lado, mesmo nas papeleiras da via pública; as ETAR em construção; os painéis informativos e os folhetos de divulgação e sensibilização por todo o lado; a imaculada limpeza das trilhas e das ruas. E grandes sinais: o discurso e a atitude das pessoas; a noção de que se trata de um desenvolvimento suportado na valorização dos recursos endógenos. Contraste com a pilhagem dos tempos do garimpo e do desmonte mecânico das margens dos rios e riachos, com as consequências ambientais conhecidas e ainda bem visíveis no vale assoreado do Paraguassu.
Itacaré, 2 Setembro
Vitor


Tudo centrado no turismo de Natureza, que traz, durante o ano todo, um fluxo regular de visitantes e alimenta um sem número de empresas e profissionais: guias, carregadores, condutores de veículos todo-o-terreno, pousadas para todas as bolsas, “nativos” (como são chamados os locais que habitam pelos montes fora e acolhem nas suas casas os caminhantes em jornadas mais longas nos vales e planaltos), restaurantes (alguns bem sofisticados na comida regional que servem), bares e lojas de artigos de alimentação, lojas de souvenirs, pequenos museus locais e ateliers de artistas. Para se ter uma ideia, a Venturas e Aventuras, empresa sedeada em Lençois que nos organizou e guiou na estadia na Chapada, tem cerca de 15 guias locais (além de carregadores e condutores). A empresa Bicho do Mato, que nos guiou na visita ao Buracão (que a Lena descreve noutro post), sedeada numa pequena localidade, emprega cerca de uma dúzia de guias locais. Tudo muito profissional, partidas e chegadas a horas, organização sem falhas, simpatia e colaboração sempre presentes.
Há 20 anos atrás estava em marcha um novo êxodo daqueles que assolam periodicamente o interior do Brasil desde há dois séculos. Hoje existe uma população jovem, activa e confiante. Percebe-se que a consciência da Natureza como recurso colectivo é elevada. Pequenos sinais: a recolha de lixo separativo em todo o lado, mesmo nas papeleiras da via pública; as ETAR em construção; os painéis informativos e os folhetos de divulgação e sensibilização por todo o lado; a imaculada limpeza das trilhas e das ruas. E grandes sinais: o discurso e a atitude das pessoas; a noção de que se trata de um desenvolvimento suportado na valorização dos recursos endógenos. Contraste com a pilhagem dos tempos do garimpo e do desmonte mecânico das margens dos rios e riachos, com as consequências ambientais conhecidas e ainda bem visíveis no vale assoreado do Paraguassu.
Itacaré, 2 Setembro
Vitor


Subscrever:
Mensagens (Atom)