Há vários tipos de viagens. Falo hoje dos glimpse travels, assim me surgiram, em inglês, as “viagens espreitadelas”, olhares roubados num instante, quiçá inesperado, certamente não programado. Quando ocorrem? No interior de viagens de trabalho, nos acasos de voltas profissionais, uma tarde, um dia livres, voltas soltas sem preparação ou o conhecimento que integra o planeamento de viagens dedicadas. Sem sistematização ou lógica, são fruto do acaso e do tempo, ou também das oportunidades que os próprios eventos oferecem.
Lembro dourados e espelhos dum banquete na esplendorosa sala espanhola do castelo de Praga, um templo grego contra o céu ao pôr do sol em Paestum, a calma suave no fim da tarde no chateau d’Yquem no regresso da recolha das uvas, a emoção dos muralistas mexicanos em Chihuaha e depois na cidade do México, o sortilégio dum comboio a apitar na noite nas faldas do Himalaia.
Ficam assim farrapos, pinceladas, por vezes fortes, que perduram na memória. Não são extrapoláveis para o país ou a cidade (mas quando o são?), representam apenas a surpresa, a emoção e o olhar aberto de um instante, às vezes em cenários que evocam leituras, filmes ou notícias.
Como em Palermo, agora.
Ficou já a chegada no aeroporto de Punta Raisi, um cabo esticado no mar tirreno a cerca de 30 km da cidade. O avião aterra em pista que corre ao longo do mar, as ondas mesmo ali a quebrar em linha paralela, o mar a perder de vista como se se estivesse num fim de terra…
Palermo, 21.Out.2010
Helena
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Volta à Chapada: Pôr-do-sol no Pai Inácio
O Morro do Pai Inácio é um grande cilindro irregular de quartzito cinzento, mais ou menos plano no topo, que se eleva a 233 m sobre um sopé em faldas verdes. Está isolado na paisagem, de modo que permite olhar a toda a volta, nomeando morros e vales. Ali estão os Morros do Testemunho, a envolver o Vale do Cercado, que acompanharam a evolução geológica da região, de mar a rio, até ao presente. Do outro lado, os morros dos Três Irmãos, em sucessão, o da Nascente do Rio Mucugêzinho, o do Rio Sossego, terminando com o maior da Chapada, o Morrão. Cá em baixo passa a BR, marco do mundo de hoje, com o seu desfile ininterrupto de caminhões.
No topo do morro está uma grande cruz metálica e aí se conta a história. Inácio era um “negão” bonito e ardiloso, filho de pai de santo, conhecedor de algumas magias, em amores correspondidos com a filha menina do coronel Horácio de Matos. Perseguido pelos jagunços, esconde-se no morro, mas uma fogueira denuncia-o. Prefere não ser preso e, da borda, soltando um grito, salta. Mas havia um recesso escondido por baixo. Como demonstrou um dos guias, saltando também para o vazio. A lenda diz que Inácio pegou a menina, fugiram, e ainda hoje são avistados em Salvador.
Termina-se o passeio a olhar o pôr-do-sol. Logo que o sol se esconde, desce-se rápido pois escurece depressa. Fechou-se a volta à Chapada.


No topo do morro está uma grande cruz metálica e aí se conta a história. Inácio era um “negão” bonito e ardiloso, filho de pai de santo, conhecedor de algumas magias, em amores correspondidos com a filha menina do coronel Horácio de Matos. Perseguido pelos jagunços, esconde-se no morro, mas uma fogueira denuncia-o. Prefere não ser preso e, da borda, soltando um grito, salta. Mas havia um recesso escondido por baixo. Como demonstrou um dos guias, saltando também para o vazio. A lenda diz que Inácio pegou a menina, fugiram, e ainda hoje são avistados em Salvador.
Termina-se o passeio a olhar o pôr-do-sol. Logo que o sol se esconde, desce-se rápido pois escurece depressa. Fechou-se a volta à Chapada.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010
O que o ecoturismo pode fazer por uma região deprimida
Há 20 anos, a Chapada Diamantina estava numa daquelas situações de fim de ciclo que as regiões de monocultura (aqui eram os diamantes) conhecem periodicamente e de que, a cada vez, parece muito difícil sair. Na esteira da Conferência do Rio (1992), houve a percepção de que a Natureza encerrava um potencial susceptível de criar novas oportunidades, até aí inexploradas. Pelo que percebemos, algumas ONGA que reuniam juventude local terão contribuído, à sua maneira, para empurrar as coisas no sentido certo. O que viemos encontrar em 2010 é uma região em estado de puro optimismo (na linha do estado geral que, felizmente, assola o Brasil por estes tempos), uma região em que as pessoas transparecem felicidade, simpatia e confiança.
Tudo centrado no turismo de Natureza, que traz, durante o ano todo, um fluxo regular de visitantes e alimenta um sem número de empresas e profissionais: guias, carregadores, condutores de veículos todo-o-terreno, pousadas para todas as bolsas, “nativos” (como são chamados os locais que habitam pelos montes fora e acolhem nas suas casas os caminhantes em jornadas mais longas nos vales e planaltos), restaurantes (alguns bem sofisticados na comida regional que servem), bares e lojas de artigos de alimentação, lojas de souvenirs, pequenos museus locais e ateliers de artistas. Para se ter uma ideia, a Venturas e Aventuras, empresa sedeada em Lençois que nos organizou e guiou na estadia na Chapada, tem cerca de 15 guias locais (além de carregadores e condutores). A empresa Bicho do Mato, que nos guiou na visita ao Buracão (que a Lena descreve noutro post), sedeada numa pequena localidade, emprega cerca de uma dúzia de guias locais. Tudo muito profissional, partidas e chegadas a horas, organização sem falhas, simpatia e colaboração sempre presentes.
Há 20 anos atrás estava em marcha um novo êxodo daqueles que assolam periodicamente o interior do Brasil desde há dois séculos. Hoje existe uma população jovem, activa e confiante. Percebe-se que a consciência da Natureza como recurso colectivo é elevada. Pequenos sinais: a recolha de lixo separativo em todo o lado, mesmo nas papeleiras da via pública; as ETAR em construção; os painéis informativos e os folhetos de divulgação e sensibilização por todo o lado; a imaculada limpeza das trilhas e das ruas. E grandes sinais: o discurso e a atitude das pessoas; a noção de que se trata de um desenvolvimento suportado na valorização dos recursos endógenos. Contraste com a pilhagem dos tempos do garimpo e do desmonte mecânico das margens dos rios e riachos, com as consequências ambientais conhecidas e ainda bem visíveis no vale assoreado do Paraguassu.
Itacaré, 2 Setembro
Vitor


Tudo centrado no turismo de Natureza, que traz, durante o ano todo, um fluxo regular de visitantes e alimenta um sem número de empresas e profissionais: guias, carregadores, condutores de veículos todo-o-terreno, pousadas para todas as bolsas, “nativos” (como são chamados os locais que habitam pelos montes fora e acolhem nas suas casas os caminhantes em jornadas mais longas nos vales e planaltos), restaurantes (alguns bem sofisticados na comida regional que servem), bares e lojas de artigos de alimentação, lojas de souvenirs, pequenos museus locais e ateliers de artistas. Para se ter uma ideia, a Venturas e Aventuras, empresa sedeada em Lençois que nos organizou e guiou na estadia na Chapada, tem cerca de 15 guias locais (além de carregadores e condutores). A empresa Bicho do Mato, que nos guiou na visita ao Buracão (que a Lena descreve noutro post), sedeada numa pequena localidade, emprega cerca de uma dúzia de guias locais. Tudo muito profissional, partidas e chegadas a horas, organização sem falhas, simpatia e colaboração sempre presentes.
Há 20 anos atrás estava em marcha um novo êxodo daqueles que assolam periodicamente o interior do Brasil desde há dois séculos. Hoje existe uma população jovem, activa e confiante. Percebe-se que a consciência da Natureza como recurso colectivo é elevada. Pequenos sinais: a recolha de lixo separativo em todo o lado, mesmo nas papeleiras da via pública; as ETAR em construção; os painéis informativos e os folhetos de divulgação e sensibilização por todo o lado; a imaculada limpeza das trilhas e das ruas. E grandes sinais: o discurso e a atitude das pessoas; a noção de que se trata de um desenvolvimento suportado na valorização dos recursos endógenos. Contraste com a pilhagem dos tempos do garimpo e do desmonte mecânico das margens dos rios e riachos, com as consequências ambientais conhecidas e ainda bem visíveis no vale assoreado do Paraguassu.
Itacaré, 2 Setembro
Vitor


terça-feira, 31 de agosto de 2010
Volta à Chapada: Catinga com Poço Azul e estudantes
O sertão, seco, de catinga, das histórias dos bandeirante ou das personagens de Jorge Amado vislumbrou-se num relance de passagem entre casas simples perdidas num terreiro castanho e campos nus semeados de pequenos montes de terra arredondados que são formigueiros (diz-se que algumas chegam a 9 cm!).
O destino era o Poço Azul, uma gruta funda onde o lençol freático faz uma lagoa. Aqui foram achados ossos de um passado distante, de preguiças e tatus gigantes. Uma abertura na rocha deixa passar os raios de sol durante algumas horas e a água fica azul, estranhamente transparente, deixando ver nítido o fundo distante.
Pode-se nadar, mas a visita é estritamente controlada - número de pessoas, tempo limite, duche prévio, nenhuns objectos, colete e óculos – o que torna a actividade demasiado amestrada.
Acrescia como envolvente uma excursão de uma escola secundária de Feira de Santana, com bandos de adolescentes à espera de vez para o Poço, comendo, rindo e tirando fotos.
Aí fomos entrevistados, por um grupo que tinha que fazer um trabalho para inglês. Â falta de nativos, também funcionaram uns portugas a falar inglês. E as perguntas e respostas sobre a importância da língua inglesa no mundo de hoje lá se fez, devidamente gravada e filmada e, no fim, com anotação dos nossos nomes.
Houve foto de fecho de entrevistadores e entrevistados. A miúda, nas escadas do Poço, deu-me um abraço bem saboroso. Devia ter-lhe perguntado o nome.


O destino era o Poço Azul, uma gruta funda onde o lençol freático faz uma lagoa. Aqui foram achados ossos de um passado distante, de preguiças e tatus gigantes. Uma abertura na rocha deixa passar os raios de sol durante algumas horas e a água fica azul, estranhamente transparente, deixando ver nítido o fundo distante.
Pode-se nadar, mas a visita é estritamente controlada - número de pessoas, tempo limite, duche prévio, nenhuns objectos, colete e óculos – o que torna a actividade demasiado amestrada.
Acrescia como envolvente uma excursão de uma escola secundária de Feira de Santana, com bandos de adolescentes à espera de vez para o Poço, comendo, rindo e tirando fotos.
Aí fomos entrevistados, por um grupo que tinha que fazer um trabalho para inglês. Â falta de nativos, também funcionaram uns portugas a falar inglês. E as perguntas e respostas sobre a importância da língua inglesa no mundo de hoje lá se fez, devidamente gravada e filmada e, no fim, com anotação dos nossos nomes.
Houve foto de fecho de entrevistadores e entrevistados. A miúda, nas escadas do Poço, deu-me um abraço bem saboroso. Devia ter-lhe perguntado o nome.


Volta à Chapada: Buracão
O Parque Municipal do Espalhado é da jurisdição de Ibicoara que obriga a que o guia acompanhante seja da cidade. O primeiro passo foi apanhar o Marconi, da agência Bicho do Mato. A trilha é curta, um total de ida e volta de 6 km, principalmente na margem do rio Mucugêzinho que depois se junta ao Riachão das Pedras, em terreno arenoso ou empedra.
Os cactos xique-xique abundam e em algumas passagens é preciso algum cuidado. Também há muitas canelas de ema, bromélias e muitas outras plantas de que não sei o nome. As orquídeas já não estavam em flor, mas vimo-las no paredão da Cachoeira das Orquídeas e pode-se imaginar…
O rio espalha-se em algumas zonas, depois entra e sai da terra, fazendo cachoeiras e lagoas. A última, o nosso destino, era espectacular: o Buracão. Desce-se até uma garganta muito estreita (10 m?) de arenitos estratificados que fazem um listado de relevos horizontais. Vê-se correr a água, funda, preta, mas polvilhada â superfície por farrapos brancos de espuma que se adivinham vindos da cachoeira. E nada-se, uns 80 m (colete é obrigatório), entrando no desfiladeiro, subindo a corrente, virando â esquerda para descobrir a lagoa e o rio a cair na vertical.


Os cactos xique-xique abundam e em algumas passagens é preciso algum cuidado. Também há muitas canelas de ema, bromélias e muitas outras plantas de que não sei o nome. As orquídeas já não estavam em flor, mas vimo-las no paredão da Cachoeira das Orquídeas e pode-se imaginar…
O rio espalha-se em algumas zonas, depois entra e sai da terra, fazendo cachoeiras e lagoas. A última, o nosso destino, era espectacular: o Buracão. Desce-se até uma garganta muito estreita (10 m?) de arenitos estratificados que fazem um listado de relevos horizontais. Vê-se correr a água, funda, preta, mas polvilhada â superfície por farrapos brancos de espuma que se adivinham vindos da cachoeira. E nada-se, uns 80 m (colete é obrigatório), entrando no desfiladeiro, subindo a corrente, virando â esquerda para descobrir a lagoa e o rio a cair na vertical.


Cidades do garimpo
Foram os diamantes que trouxeram gente a estes povoados – Igatu, Mucugê, Andaraí, para além de Lençóis.
Igatu é um bom exemplo. Chega-se por 6 km de um caminho em grande parte calcetado com lajes de pedra que sacolejam tudo. Mas está tombada… nada a fazer! Ali corre o rio Piaba que desce o monte até ao rio Paraguaçu, lá no vale, ambos locais de garimpo. Igatu era conhecido pelos diamantes carbonados, negros, valiosos de tão duros para ferramentas de corte.
O garimpo fazia-se primeiro manualmente, imprimindo movimentos circulares à bateia, grande prato de madeira ligeiramente cónico, onde os diamantes, mais densos, se depositavam na depressão central. A estátua numa das praças de Andaraí é bem elucidativa. Depois veio o garimpo motorizado e o Paraguaçu, antes profundo e navegável, ficou completamente assoreado.
Aqui viveram no auge perto de 10 mil pessoas. Muitos escravos mas também a arraia miúda, a mando dos senhores dos garimpos e das terras, e do coronel. Parece que, quando assassinaram o coronel Horácio de Matos, a população debandou, montes afora, e ficou a cidade-fantasma, como hoje se chama. Tombada, claro!
Igatu vive hoje do ecoturismo e de uma certa vertente artístico-cultural. Marcos Zacarias é um artista residente, curador de um pequeno museu e sala de exposições. Os grandes discos feitos com uma amálgama de cápsulas de eucalipto, de sua criação, vão ficar-me na memória.


Igatu é um bom exemplo. Chega-se por 6 km de um caminho em grande parte calcetado com lajes de pedra que sacolejam tudo. Mas está tombada… nada a fazer! Ali corre o rio Piaba que desce o monte até ao rio Paraguaçu, lá no vale, ambos locais de garimpo. Igatu era conhecido pelos diamantes carbonados, negros, valiosos de tão duros para ferramentas de corte.
O garimpo fazia-se primeiro manualmente, imprimindo movimentos circulares à bateia, grande prato de madeira ligeiramente cónico, onde os diamantes, mais densos, se depositavam na depressão central. A estátua numa das praças de Andaraí é bem elucidativa. Depois veio o garimpo motorizado e o Paraguaçu, antes profundo e navegável, ficou completamente assoreado.
Aqui viveram no auge perto de 10 mil pessoas. Muitos escravos mas também a arraia miúda, a mando dos senhores dos garimpos e das terras, e do coronel. Parece que, quando assassinaram o coronel Horácio de Matos, a população debandou, montes afora, e ficou a cidade-fantasma, como hoje se chama. Tombada, claro!
Igatu vive hoje do ecoturismo e de uma certa vertente artístico-cultural. Marcos Zacarias é um artista residente, curador de um pequeno museu e sala de exposições. Os grandes discos feitos com uma amálgama de cápsulas de eucalipto, de sua criação, vão ficar-me na memória.


segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Volta à Chapada: Vale do Capão - Gerais do Vieira- Guiné
Esta foi a tirada mais comprida, 17 km, acompanhados pelo Piaba, sob um céu encoberto. Começa-se - como sempre – a subir! Desta vez com uma emoção pois cruzámo-nos com uma cobra venenosa que se meteu nas ervas e desapareceu. Parece que é frequente, assim como a cobra coral.
No planalto, um longo percurso em caminho fácil no meio de pastos, os Gerais do Vieira, que eram terrenos comunais para onde as populações traziam o gado. Hoje isso já não é possível e por aqui andam apenas burros. O trilho atravessa o planalto, perdendo-se entre as ervas. Nos refegos das ondulações aumenta a vegetação, correm riachos.
Na ponta, em frente ao Morro Branco, a vista espraia-se, escorre pelo Vale do Pati, e termina nos morros que circundam o horizonte. Aqui viramos mais ou menos a 90º, cruzamos o Rio Preto e atravessamos os Gerais do Rio Preto.
A descida é bastante espectacular, uma escadaria de blocos de pedra que serpenteia com grande declive até ao Guiné, pequeno povoado simples, onde nos esperava o Vladimir com o jipe e as nossas mochilas.
Depois foi rodar no vale plano, bastante agricultado, até Igatú, onde nos esperava o jantar na Pousada.


No planalto, um longo percurso em caminho fácil no meio de pastos, os Gerais do Vieira, que eram terrenos comunais para onde as populações traziam o gado. Hoje isso já não é possível e por aqui andam apenas burros. O trilho atravessa o planalto, perdendo-se entre as ervas. Nos refegos das ondulações aumenta a vegetação, correm riachos.
Na ponta, em frente ao Morro Branco, a vista espraia-se, escorre pelo Vale do Pati, e termina nos morros que circundam o horizonte. Aqui viramos mais ou menos a 90º, cruzamos o Rio Preto e atravessamos os Gerais do Rio Preto.
A descida é bastante espectacular, uma escadaria de blocos de pedra que serpenteia com grande declive até ao Guiné, pequeno povoado simples, onde nos esperava o Vladimir com o jipe e as nossas mochilas.
Depois foi rodar no vale plano, bastante agricultado, até Igatú, onde nos esperava o jantar na Pousada.


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