sábado, 28 de agosto de 2010

Chapada Diamantina: Lençóis

A volta à Chapada começa aqui. Lençóis desenvolveu-se com o garimpo e quando apareceram diamantes rapidamente atraiu pesquisadores que montaram toldos e tendas, os lençóis que se viam ao longe e lhe deram nome. Parece que recentemente tentaram chamar-lhe Resplendor, mas não pegou e Lençóis ficou.
Hoje, proibido o garimpo em 1994, é o turismo que traz batalhões de visitantes e fez nascer múltiplas agências de ecoturismo, lojas de arte-artesanato, pousadas. Bem preservada, casas coloniais e fiadas de fachadas coloridas, ruas calcetadas em declive, o rio Lençóis a atravessar escorrendo sobre as pedras. As águas cantam nas cachoeirinhas e a Pousada ao seu lado é uma delícia (tinhas razão Pedro!).
À tarde, tudo está fechado e a cidade arrasta-se sonolenta. Sentada num pequeno largo, vejo passar o tempo, um cão a dormir, miúdos a brincar, duas mininas a cutucar dois molequinhos que correm nas pernas curtas com pedras na mão, mas é só ameaça e os risos são muitos. À noite anima, tanto com os locais a tomar um chope e a comer acarajés, como com turistas variados, certinhos ou alternativos, brasileiros ou europeus.
Está-se bem, a noite é quente.


Notas de viajante

Não é fácil a vida de viajante e o tempo é sempre curto! Manter um blog – ou um diário – não é possível com a regularidade cronológica dos acontecimentos. Exceptuando os casos de não haver internet, ou ser impraticável de tão lenta, os dias estão cheios. Café da manhã bem cedo, todo o dia caminhando ou visitando, chega-se estoirado, um banho e já é noite. Só dá para as rotinas: descarregar as fotografias, formatar o cartão, carregar a bateria. Na cama pensa-se nos potenciais escritos e faz-se a lista de boas intenções: amanhã, sem falta, escrevo o relato, passo as notas tiradas a caminhar de nomes e de plantas, num papel dobrado em oito com uma esferográfica que às vezes só escreve intermitente (será que ainda vou lembrar?). Também seria bom legendar as fotos, a memória mistura tudo rapidamente. Ser a única fotógrafa também é solitário, e os outros impacientam-se ou brincam. “Tem que segurar ela”, “prende ela no pé”, comentava o Vladimir Bau-Bau quando me via afastar com a máquina nos povoados, com grande deleite do Vitor (ai mana fazes falta!).
Admiro os relatos dos viajantes científicos, páginas e páginas de escritos detalhados, de pormenores e desenhos, para além das impressões. Ou dos modernos escritores-jornalistas a mandar texto sobre texto e a guardar notas para livros futuros. Decididamente eu sou mais do estilo slow travel…

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Janelas de Tiradentes

Outras épocas e outro lugar estão nas janelas em Tiradentes. Guilhotinas, portadas, cortinas rendadas, vidraças recortadas, é como uma viagem a um passado de uma vila portuguesa. As ruas empedradas e as praças, as igrejas no alto, o fontanário na entrada, casas senhoriais decoradas, tudo lembra uma memória imaginada.
Diz-se de Tiradentes, tal como das outras cidades históricas da época da exploração do ouro, que ficou parada no tempo. É certo na arquitectura, mas não na vida da vila que está bem actual, com um turismo exuberante, artesanato e restaurantes, pousadas e charrettes, absolutamente lotada neste fim de semana de festival gastronómico.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Churrasquinho e tutu

Toda a ocasião é boa para um churrasquinho bem acompanhado por cerveja bem gelada: boas vindas, defesas de teses, eventos, ou apenas comer as sobras de carne do churrasco anterior. O churrasco de encerramento do workshop teve músicos a tocar chorinho e sambas e até o “Coimbra é uma canção” que foi dançado pelos mininos com arabescos vagamente tangueiros.
O Sr. Morais, mestre churrasqueiro, ensinou os segredos. Carne de boi (a picanha é a melhor) não é temperada, apenas envolvida em sal grosso e grelhada, pois assim não seca e fica no ponto; no fim basta sacudir. Já o frango (só coxinhas das asas, que se grelham melhor e são fáceis de comer) e o suíno são temperados: um copo de vinho branco, água, sal, cebola e cebolinho, salsa em marinada. E o carvão de eucalipto é o melhor, mantém uma temperatura baixa e não dá cheiros.
Mas houve mais. O tutu mineiro é uma delícia, um puré de feijão com carne e enchido topeado com rodelas de cebola estufadas, comido com couve cortada fina. E o frango ora pro nobis, um estufado com folhas do arbusto desse nome, acompanhado com angu, uma polenta.
Também deu para provar algumas das cachaças – parece que Minas Gerais é famosa pela variedade, a maior parte artesanal. A Selecta é envelhecida em madeira de cerejeira e tem um travozinho final a cereja que surpreende.
Beber cachaça também tem conheimento! Põe-se debaixo da língua, daí escorre devagar, abrindo o coração. E ficou a imagem, de história contada, de um velho cachaceiro sentado na sua roça, bebendo lentamente a pinga, a olhar a passarada ao entardecer.

sábado, 21 de agosto de 2010

Minas Gerais: do Cerrado e Lavras

A pequena cidade de Lavras fica a 230 km a sul de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Foi uma árvore, o pau-santo (Kielmeyera coriacea) que aqui me trouxe. Ela é uma das espécies do cerrado que possuem uma casca com cortiça, talvez adaptação protectora contra os fogos frequentes. O cerrado, a savana brasileira, que ocupa quase um quarto do país, apresenta várias fisionomias desde formações densas a espaços abertos de gramíneas, com grande diversidade de plantas e animais, mas também desmatação para agricultura e plantações florestais e utilização extractiva excessiva.
O mote é “se queres preservar a biodiversidade, usa-a” e daí a investigação sobre as espécies e os produtos. A cortiça poderá ser um deles.
Um passeio nos montes circundantes permitiu as primeiras impressões. E a lição dos colegas Marco Aurélio e Rubens deu a primeira pincelada sobre espécies e fenómenos. Na paisagem, vêem-se as copas com diferentes colorações, amarelas, vermelhas, castanhas, que resultam das folhas que estão a nascer. No pau-santo, as folhas novas espetam-se em tufos na ponta dos ramos e não resisto a uma foto a observar o tronco cortiçoso.
E muitas das árvores retorcem-se escultóricas, com uma tortuosidade carácterística do cerrado, cujas razões parecem não ser ainda conhecidas.





Quanto a Lavras, da praça central, a cidade escorre para os lados por ladeiras empinadas. No passado existia um bonde que as percorria. Hoje pouco resta do que deve ter sido uma vila de casas típicas burguesas com enfeites nas fachadas. A praça ainda tem uma igreja de simplicidade ingénua e um ou outro edifício, e, como símbolo da cidade, uma árvore centenária, um ipê monumental que já precisa de ajuda para segurar os ramos. De resto principalmente construções baixas, descaracterizadas, a lembrar clandestinos de arrabaldes.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Conto moral em 3 actos

A última vez que me esqueci de arrumar a minha Leatherman (uma espécie da canivete suíço, mas mais desenvolvido) na bagagem de porão foi antes do embarque num voo Boston-São Francisco e o resultado foi a Leatherman ser-me confiscada no controlo de segurança e ter de comprar uma nova. Além do valor pecuniário (mais de 150 €), há o valor afectivo. Trata-se de um objecto que dá prazer ter e utilizar nestas andanças.
1º Acto – Prólogo
Aeroporto de El Calafate. Feito o check-in no voo para Buenos Aires, já na fila do controlo de segurança, dou-me conta de que tenho a Leatherman no estojo posto ao cinto. Volto em passo acelerado ao balcão de check-in, na tentativa de encontrar uma solução que permita ainda despachá-la como bagagem de porão. Ao chegar, vejo a minha mochila (que é totalmente preta) a ser colocada na passadeira de bagagem e a mochila da Lena (igual mas com algumas partes cor de caqui) encostada, para ser colocada a seguir. Peço que me dêem a mochila da Lena, enfio rapidamente a Leatherman numa das bolsas laterais e reentrego a mochila, que é colocada na passadeira. Aliviado e satisfeito, regresso à fila do controlo de segurança, não deixando de me interrogar porque razão, mais de 15 minutos depois de termos feito o check-in, a nossa bagagem ainda ali estava.
2º Acto – Coincidências
Passadeira de recolha de bagagens no aeroporto de Buenos Aires. Surge a minha mochila (preta). Retiro-a da passadeira e só depois começo a estranhar pequenos pormenores. O cadeado que liga os fechos inferiores não está lá. A Lena chama-me a atenção para que há um saco-cama enrolado sob a tampa superior da mochila. Compreendo que não é a minha mochila (trata-se de uma da mesma marca, modelo e cor) e recoloco-a na passadeira. Passados uns instantes, surge na passadeira a mochila da Lena e logo a seguir a minha (verdadeira) mochila. Quando retiramos a mochila da Lena aproxima-se um casal jovem, franceses, e concluímos os quatro de que a mochila da Lena afinal é a da francesa. E que a anterior mochila preta igual à minha é do francês. Em síntese, o casal francês tinha mochilas iguais às nossas, mesma marca, modelo e repartição de cores pelos membros do casal. Brincamos os quatro sobre a coincidência e eles vão-se embora.
3º Acto – Epílogo
Finalmente surge na passadeira a (verdadeira) mochila da Lena. Antes de a colocar no carrinho de bagagem procuro a Leatherman. E não a encontro na bolsa lateral onde a tinha posto. Numa primeira fracção de segundo admito o roubo. No instante seguinte, qual raio que me atravessa o espírito, percebo o que se passou. Eu e a Margarida saímos disparados e atravessamos a correr a sala de bagagens, o controlo de saída, o átrio das chegadas, à procura do casal francês, que encontramos já na fila de espera dos táxis. Segue-se a parte caricata. Rápida explicação minha, que os franceses dificilmente terão percebido logo, e passa-se à busca da Leatherman nas bolsas laterais da mochila dela. Na primeira bolsa não há nada. Da outra começam por sair cuecas e sutiãs, com a francesa a balbuciar “mes culottes”. Aí parei e deixei a busca para a dona da mochila. Instantes depois surge a Leatherman. Cai o pano, rápido.
Neste tempo de segurança reforçada nos aeroportos, ficam várias ilações e outras tantas interrogações. Nomeadamente sobre o papel do acaso nas falhas de segurança.
Hotel Colón, Buenos Aires, 2010-01-28
VC
PS – Cristina, pensámos em ti e fizemos uma fotografia.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Puerto Natales

Definitivamente, gosto destas cidades de fronteira onde o espírito pioneiro se pressente no ar e se lê nas pessoas, nos espaços e nas construções.
A simplicidade da quadrícula a organizar tudo, os cheios e os vazios, as casas, a igreja, as ruas, a praça com o jardim público e os bustos dos notáveis, a escola, a sede da edilidade. Casas de madeira de um ou dois pisos bordejando as ruas, multiplicidade de formas e usos dentro de uma tipologia definível, frequentemente forradas a chapa ondulada ou tábua trincada (como o casco das baleeiras) e pintadas de cores fortes e contrastadas, utilizando criativamente as tintas que sobram do arranjo dos barcos ou de outras aplicações produtivas. Tabuletas elucidativas que atraem o olhar e orientam a procura. Uma atmosfera de comunidade, de simplicidade e de clareza sobre as condições básicas da existência. O mar está presente, a lembrar que o resto do mundo existe. O porto (mais do que o aeroporto) é o interface dessa articulação. Os navios atracados o elo de ligação intermitente.
Puerto Natales é uma dessas cidades de fronteira. Situa-se à entrada de um dos braços do Estreito de Magalhães, expressivamente denominado Última Esperança.
No autocarro da carreira que liga Puerto Natales (Chile) a El Calafate (Argentina), 2010-01-26
VC