terça-feira, 24 de agosto de 2010

Janelas de Tiradentes

Outras épocas e outro lugar estão nas janelas em Tiradentes. Guilhotinas, portadas, cortinas rendadas, vidraças recortadas, é como uma viagem a um passado de uma vila portuguesa. As ruas empedradas e as praças, as igrejas no alto, o fontanário na entrada, casas senhoriais decoradas, tudo lembra uma memória imaginada.
Diz-se de Tiradentes, tal como das outras cidades históricas da época da exploração do ouro, que ficou parada no tempo. É certo na arquitectura, mas não na vida da vila que está bem actual, com um turismo exuberante, artesanato e restaurantes, pousadas e charrettes, absolutamente lotada neste fim de semana de festival gastronómico.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Churrasquinho e tutu

Toda a ocasião é boa para um churrasquinho bem acompanhado por cerveja bem gelada: boas vindas, defesas de teses, eventos, ou apenas comer as sobras de carne do churrasco anterior. O churrasco de encerramento do workshop teve músicos a tocar chorinho e sambas e até o “Coimbra é uma canção” que foi dançado pelos mininos com arabescos vagamente tangueiros.
O Sr. Morais, mestre churrasqueiro, ensinou os segredos. Carne de boi (a picanha é a melhor) não é temperada, apenas envolvida em sal grosso e grelhada, pois assim não seca e fica no ponto; no fim basta sacudir. Já o frango (só coxinhas das asas, que se grelham melhor e são fáceis de comer) e o suíno são temperados: um copo de vinho branco, água, sal, cebola e cebolinho, salsa em marinada. E o carvão de eucalipto é o melhor, mantém uma temperatura baixa e não dá cheiros.
Mas houve mais. O tutu mineiro é uma delícia, um puré de feijão com carne e enchido topeado com rodelas de cebola estufadas, comido com couve cortada fina. E o frango ora pro nobis, um estufado com folhas do arbusto desse nome, acompanhado com angu, uma polenta.
Também deu para provar algumas das cachaças – parece que Minas Gerais é famosa pela variedade, a maior parte artesanal. A Selecta é envelhecida em madeira de cerejeira e tem um travozinho final a cereja que surpreende.
Beber cachaça também tem conheimento! Põe-se debaixo da língua, daí escorre devagar, abrindo o coração. E ficou a imagem, de história contada, de um velho cachaceiro sentado na sua roça, bebendo lentamente a pinga, a olhar a passarada ao entardecer.

sábado, 21 de agosto de 2010

Minas Gerais: do Cerrado e Lavras

A pequena cidade de Lavras fica a 230 km a sul de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Foi uma árvore, o pau-santo (Kielmeyera coriacea) que aqui me trouxe. Ela é uma das espécies do cerrado que possuem uma casca com cortiça, talvez adaptação protectora contra os fogos frequentes. O cerrado, a savana brasileira, que ocupa quase um quarto do país, apresenta várias fisionomias desde formações densas a espaços abertos de gramíneas, com grande diversidade de plantas e animais, mas também desmatação para agricultura e plantações florestais e utilização extractiva excessiva.
O mote é “se queres preservar a biodiversidade, usa-a” e daí a investigação sobre as espécies e os produtos. A cortiça poderá ser um deles.
Um passeio nos montes circundantes permitiu as primeiras impressões. E a lição dos colegas Marco Aurélio e Rubens deu a primeira pincelada sobre espécies e fenómenos. Na paisagem, vêem-se as copas com diferentes colorações, amarelas, vermelhas, castanhas, que resultam das folhas que estão a nascer. No pau-santo, as folhas novas espetam-se em tufos na ponta dos ramos e não resisto a uma foto a observar o tronco cortiçoso.
E muitas das árvores retorcem-se escultóricas, com uma tortuosidade carácterística do cerrado, cujas razões parecem não ser ainda conhecidas.





Quanto a Lavras, da praça central, a cidade escorre para os lados por ladeiras empinadas. No passado existia um bonde que as percorria. Hoje pouco resta do que deve ter sido uma vila de casas típicas burguesas com enfeites nas fachadas. A praça ainda tem uma igreja de simplicidade ingénua e um ou outro edifício, e, como símbolo da cidade, uma árvore centenária, um ipê monumental que já precisa de ajuda para segurar os ramos. De resto principalmente construções baixas, descaracterizadas, a lembrar clandestinos de arrabaldes.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Conto moral em 3 actos

A última vez que me esqueci de arrumar a minha Leatherman (uma espécie da canivete suíço, mas mais desenvolvido) na bagagem de porão foi antes do embarque num voo Boston-São Francisco e o resultado foi a Leatherman ser-me confiscada no controlo de segurança e ter de comprar uma nova. Além do valor pecuniário (mais de 150 €), há o valor afectivo. Trata-se de um objecto que dá prazer ter e utilizar nestas andanças.
1º Acto – Prólogo
Aeroporto de El Calafate. Feito o check-in no voo para Buenos Aires, já na fila do controlo de segurança, dou-me conta de que tenho a Leatherman no estojo posto ao cinto. Volto em passo acelerado ao balcão de check-in, na tentativa de encontrar uma solução que permita ainda despachá-la como bagagem de porão. Ao chegar, vejo a minha mochila (que é totalmente preta) a ser colocada na passadeira de bagagem e a mochila da Lena (igual mas com algumas partes cor de caqui) encostada, para ser colocada a seguir. Peço que me dêem a mochila da Lena, enfio rapidamente a Leatherman numa das bolsas laterais e reentrego a mochila, que é colocada na passadeira. Aliviado e satisfeito, regresso à fila do controlo de segurança, não deixando de me interrogar porque razão, mais de 15 minutos depois de termos feito o check-in, a nossa bagagem ainda ali estava.
2º Acto – Coincidências
Passadeira de recolha de bagagens no aeroporto de Buenos Aires. Surge a minha mochila (preta). Retiro-a da passadeira e só depois começo a estranhar pequenos pormenores. O cadeado que liga os fechos inferiores não está lá. A Lena chama-me a atenção para que há um saco-cama enrolado sob a tampa superior da mochila. Compreendo que não é a minha mochila (trata-se de uma da mesma marca, modelo e cor) e recoloco-a na passadeira. Passados uns instantes, surge na passadeira a mochila da Lena e logo a seguir a minha (verdadeira) mochila. Quando retiramos a mochila da Lena aproxima-se um casal jovem, franceses, e concluímos os quatro de que a mochila da Lena afinal é a da francesa. E que a anterior mochila preta igual à minha é do francês. Em síntese, o casal francês tinha mochilas iguais às nossas, mesma marca, modelo e repartição de cores pelos membros do casal. Brincamos os quatro sobre a coincidência e eles vão-se embora.
3º Acto – Epílogo
Finalmente surge na passadeira a (verdadeira) mochila da Lena. Antes de a colocar no carrinho de bagagem procuro a Leatherman. E não a encontro na bolsa lateral onde a tinha posto. Numa primeira fracção de segundo admito o roubo. No instante seguinte, qual raio que me atravessa o espírito, percebo o que se passou. Eu e a Margarida saímos disparados e atravessamos a correr a sala de bagagens, o controlo de saída, o átrio das chegadas, à procura do casal francês, que encontramos já na fila de espera dos táxis. Segue-se a parte caricata. Rápida explicação minha, que os franceses dificilmente terão percebido logo, e passa-se à busca da Leatherman nas bolsas laterais da mochila dela. Na primeira bolsa não há nada. Da outra começam por sair cuecas e sutiãs, com a francesa a balbuciar “mes culottes”. Aí parei e deixei a busca para a dona da mochila. Instantes depois surge a Leatherman. Cai o pano, rápido.
Neste tempo de segurança reforçada nos aeroportos, ficam várias ilações e outras tantas interrogações. Nomeadamente sobre o papel do acaso nas falhas de segurança.
Hotel Colón, Buenos Aires, 2010-01-28
VC
PS – Cristina, pensámos em ti e fizemos uma fotografia.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Puerto Natales

Definitivamente, gosto destas cidades de fronteira onde o espírito pioneiro se pressente no ar e se lê nas pessoas, nos espaços e nas construções.
A simplicidade da quadrícula a organizar tudo, os cheios e os vazios, as casas, a igreja, as ruas, a praça com o jardim público e os bustos dos notáveis, a escola, a sede da edilidade. Casas de madeira de um ou dois pisos bordejando as ruas, multiplicidade de formas e usos dentro de uma tipologia definível, frequentemente forradas a chapa ondulada ou tábua trincada (como o casco das baleeiras) e pintadas de cores fortes e contrastadas, utilizando criativamente as tintas que sobram do arranjo dos barcos ou de outras aplicações produtivas. Tabuletas elucidativas que atraem o olhar e orientam a procura. Uma atmosfera de comunidade, de simplicidade e de clareza sobre as condições básicas da existência. O mar está presente, a lembrar que o resto do mundo existe. O porto (mais do que o aeroporto) é o interface dessa articulação. Os navios atracados o elo de ligação intermitente.
Puerto Natales é uma dessas cidades de fronteira. Situa-se à entrada de um dos braços do Estreito de Magalhães, expressivamente denominado Última Esperança.
No autocarro da carreira que liga Puerto Natales (Chile) a El Calafate (Argentina), 2010-01-26
VC

Patagónia Radical

As previsões de tempo eram de alguma acalmia. O vento seria, apenas, de 80km/hora, o que permite a navegação no Lago Grey, a caminho do Glaciar onde se pode caminhar.
Aí fomos - pum catapum, splash… - numa lancha semi-rígida, apanhando valente tareia para depois de navegar num mar de icebergs, alguns do tamanho de uma casa, chegar ao nosso “porto seguro”. Um calhau arredondado, liso, que se trepava até um monte de pedregulhos e cascalho, junto ao início do campo de gelo. Aí, bem encasacados, devidamente enluvados e embarretados, completámos o equipamento com grampos nas botas, arnês e bordão adequado. Antes, porém, fomos encorajados a usar o “sani-gelo”, pois, daí em diante as comodidades eram, ainda, menos discretas.
Mesmo junto ao gelo, as instruções. Para andar em plano, fazer passo de pato, pés à largura dos ombros. Para subir, a técnica do 1-2-3, ou seja, primeiro um pé espetado a pontapé, depois o bordão e depois o outro pé, recomeçando a contagem. A descida é na posição de “toilette”, pernas flectidas e “espalda bien derecha”, com a dificuldade acrescida de que não está lá o normal apoio.
Mas lá fomos. E continuaram as emoções! Para atingir a enorme planalto do glaciar há que vencer a primeira barreira, quase vertical. Mas depois é a maravilha. Os azuis dos riachos em meandros, brilhantes, nos intervalos em que o sol apareceu. Lagoas no meio do gelo, profundas, deixando ver os estratos mais ou menos escuros, mas sempre de azul intenso. Torrentes com quedas de água dentro do glaciar, que julgava uma massa compacta de gelo e é afinal, um intrincado de túneis e linhas de água.
Horas de maravilha onde nem faltou um chá verde com mel, bem quentinho, partilhado no meio da brancura azulada do glaciar. O regresso foi em águas então tranquilas, o que rematou da melhor maneira a estadia no PN das Torres del Paine.
Hotel Charles Darwin, Puerto Natales, 25 de Janeiro de 2010
MCS

O caminho fez-se (também) caminhando

Com um passeio sobre o glaciar Grey, no final da manhã de hoje, terminaram as caminhadas a pé que eu, a Lena e a Margarida, activamente procurámos desde a chegada aos parques naturais das latitudes austrais.
Primeiro, para “desenferrujar”, um trilho costeiro no Parque Nacional da Terra do Fogo, perto de Ushuaia. Cerca de 4 horas de um percurso pontuado de vistas espectaculares sobre o Canal Beagle, vegetação abundante (para deleite das duas amantes da flora), muita passarada, sucessivas enseadas com erva até à água transparente e um terço final em subida acentuada, a deixar-nos os bofes de fora.

Depois, no Parque Nacional dos Glaciares, uma subida nas faldas do Monte FitzRoy (El Chaltén, “a montanha que fumega”, na língua tehuelche), 14 km de extensão e 300 metros de desnível (a vencer duas vezes, na ida e no regresso), até um lago e um ponto de vista privilegiado sobre o pico uns 3000 metros mais acima. Tempo chuvoso mas vistas fabulosas para cima (picos nevados) e para baixo (encostas cobertas de vegetação e vale de aluvião com rio sinuoso.

No Parque Nacional Torres del Paine, um trajecto de barco pelo Lago Pehoe deixou-nos no Refúgio Paine Grande, início de um trilho que conduz ao denominado “acampamento italiano” (base da escalada da Torre Norte por uma expedição italiana, nos anos 60). Percurso de 15 km, feito em 5 horas e meia debaixo de chuva ocasional, bordejando vários lagos, observando pequenos glaciares e várias cascatas na encosta de rocha nua a pique acima de nós, atravessando uma torrente por uma ponte pênsil feita de madeira e cabos de aço (max. 2 pessoas de cada vez, dizia o aviso).


Ontem, o mau tempo apenas permitiu um pequeno mas instrutivo percurso de hora e meia através de uma amostra bastante completa dos vários ecossistemas pré-andinos.
Hoje, depois de uma travessia muito batida do Lago Grey (proa ao vento forte e à ondulação picada, a obrigar o semi-rígido que nos transportava a navegar devagar e a sujeitar-nos mesmo assim a uma verdadeira sova a cada embate com as ondas), uma experiência nova: caminhada sobre um glaciar. Grampos nas botas, arnês, piolet, aprender a caminhar com os “sapatos ferrados”, a subir e descer vertentes, e lá fomos, num grupo de sete e dois guias, à descoberta de um mundo novo: paisagem em múltiplos tons de azul, superfície do gelo polvilhada de calhaus de todas as dimensões, desde o areão ao pedregulho de muitas toneladas no fundo de uma depressão, lagoas de água absolutamente cristalina (lembram-se da garrafa de Absolut), cursos de água azur que serpenteiam apressados à superfície para tombar em cascata por poços (“moinhos”) profundos de várias dezenas de metros e se perderem nas entranhas do gelo, fendas de menos de meio metro de largura, longas de dezenas ou centena de metros e sem fundo aparente, vistas dominantes sobre o lago azul turquesa leitoso (“leite de glaciar”), pontuado de icebergues que os ventos dos últimos dias desprenderam. Chuva, vento, mas também o esplendor do gelo ao sol. Regresso de barco seguido de breve caminhada (meia hora) até ao almoço ligeiro num hotel confortável. A recordação do sol na cara e os músculos maçados a convidarem à moleza.


O motor insubstituível destas coisas é a curiosidade de descobrir sítios especiais e o gosto de estar na natureza. Mas a tecnologia dá hoje uma grande ajuda. Roupas e botas respiráveis, que impedem que a chuva entre mas deixam sair a transpiração, mantendo o corpo sempre seco, aplicação do princípio da “casca de cebola”, sucessivas camadas de roupas finas e leves que permitem adequar facilmente o nível de agasalho ao ambiente exterior, mantendo o corpo a uma temperatura confortável, mochilas ergonómicas, “camel-back”, todo um arsenal de meios que contribuem muito para o conforto e o prazer de quem as faz, mesmo que seja debaixo de vento frio e chuva, como várias vezes aconteceu.
Hotel Charles Darwin, Puerto Natales, Chile, 2010-01-25
VC