sábado, 16 de janeiro de 2010

Trelew

Sobrevoa-se a planície, castanha, ponteada de tufos de vegetação, linhas de terra batida cruzando-a esparsamente. A linha de costa à esquerda, o castanho a terminar abrupto, debruado por uma tira esbranquiçada mostrando a falésia. O mar com carneiros de espuma vindos do sul, os “40 rugidores” já a chegar.
O avião treme, abana, depois salta. Mas aterra suave e pára junto ao terminal. Sai-se directo para a pista, o vento a fustigar. E aí ficam os viajantes a fotografar este princípio de lonjura.


Hotel Aguas Mansas, Puerto Madryn, 2010-01-12
HP

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

El Caminito

La Boca é um bairro na foz do rio Riachuelo, local de chegada de emigrantes pobres. Aqui se estabeleceu um grupo de marinheiros genoveses que no final do séc. XIX declararam a República Independente de La Boca, de vida curta dado que a Argentina não gostou…
Na primeira metade do século XX, por iniciativa do pintor Quinquela Martin, desenvolveu-se um projecto cultural com teatro de rua. As casas, de madeira e zinco, foram pintadas com cores fortes e garridas, e a rua baptizada de “El Caminito” em homenagem ao célebre tango. É agora um dos postais ilustrados mais comuns de Buenos Aires.
El Caminito é visita obrigatória, local de exposição de artistas e artesãos, cheia de movimento e colorido, com música ao vivo e espectáculos de tango.




quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Puerto Madero

Puerto Madero fica no antigo porto comercial de Buenos Aires, assim chamado porque o seu promotor foi Eduardo Madero. As antigas docas são hoje usadas por embarcações de recreio e os armazéns portuários, em tijolo, foram recuperados para apartamentos. Nas arcadas, ao longo de toda a beira de água, sucedem-se os restaurantes fazendo deste local um centro gastronómico agradável e animado. Aí comemos vários bifes de chorizo e de lomo, e provámos as delícias dos vinhos tintos argentinos.
Nos terraplenos do lado marítimo os novos edifícios criam um skyline recortado e moderno.
Puerto Madero constitui também uma homenagem à mulher com a sua Ponte de la Mujer, obra de Santiago Calatrava, e com toda a toponímia dedicada a mulheres com papel relevante na Argentina.




Café Tortoni

O segundo dia em Buenos Aires começou com um café num dos pontos de visita obrigatória, o histórico café Tortoni. Fundado em 1858, foi ponto de encontro da sociedade burguesa e da intelectualidade de Buenos Aires. Também aí cantou Gardel.
As paredes estão cobertas com pinturas e fotografias antigas contando a história do café. Ao fundo, numa mesa, José Luís Borges, Carlos Gardel e a poetisa Alfonsina Storni deixam-se fotografar pelos turistas.


Palo borracho

Nos jardins de Buenos Aires é frequente uma árvore com tronco bojudo em forma de pote e aspecto inconfundível, que se presta a arte urbana. Na floração parece um enorme vaso coroado com centenas de flores rosa e branco. As sementes estão envoltas em fios sedosos, brilhantes, que se espalham com o vento. Os espinhos, fervidos em água, parecem curar tanto as dores de costas como o alcoolismo…
Trata-se da Ceiba speciosa, chamada pelos guaranis samohú, e que nós conhecemos como a árvore da sumaúma.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Buenos Aires

Buenos Aires recebeu-nos com tempo tropical, 300 e quase 90% de humidade, o que não impediu a primeira caminhada pela cidade.
A Av. Florida, pedonal, começava a animar-se pelas 10 da manhã embora, pelo menos a essa hora, muitas lojas estejam fechadas, algumas por todo o dia de Domingo.
Florida desemboca na célebre Praça de Maio, do mundo conhecida pelas manifestações das “Mães da Praça de Maio” que perderam os seus filhos no tempo da ditadura. No chão, o seu símbolo – o lenço branco, frente à “Casa Rosada” a sede da Presidência, com protecções delimitando até onde as manifestantes se podem aproximar, pois todas as semanas as “Mães “ aí marcam a sua presença.



Pelo Paseo de Colon se rumou ao Bairro de San Telmo de ruas estreitas e onde todos os turistas em Buenos Aires se concentram ao Domingo para flanar entre os “hippies” que, imutáveis no tempo, vendem as missangas, penas e outros materiais transformados em adornos. Tudo no chão onde também se espalhavam os “copos” para o mate, os vidros, sei lá que mais. Um mágico tirava da mão vazia o eterno lenço vermelho que, de seguida, fazia desaparecer. Jovens, produzidas, posavam em atitude de tango.



Na esquina o bar “Mi Tio” onde nos refrescámos da verdadeira canícula que está lá fora. Ao lado, uma banda tocava vagamente jazz. O ambiente é animado e fez-nos sentir bem, nesta primeira aproximação a Buenos Aires

Na Patagónia

Bruce Chatwin apareceu por acaso, no deambular frente aos escaparates da livraria. O título Na Patagónia despertou o interesse, a leitura da badana completou a decisão. Jornalista do Sunday Times Magazine, ficou célebre o seu telegrama de demissão “Fui para a Patagónia”. E sobre o livro: um clássico da literatura contemporânea que conferiu novos contornos à literatura de viagens.
O livro deixa marca. Conta histórias de pessoas, numa mistura de origens e actividades, galeses, ingleses, russos, judeus, fazendeiros, padres, engenheiros. Histórias banais que tecem um quadro de impressões.
E tem também relatos históricos, das viagens de Magalhães, Fitzroy e Darwin, e de muitos outros. Aqui a narrativa é mais detalhada, e muitas vezes são quase epopeias de vidas de aventura. Como a de Charley Milward, em rapaz posto na marinha mercante, em 1870, que correu mares, elegeu o fim do mundo como porto de retorno, e olhou o estreito por um telescópio instalado na torre da sua casa em Punta Arenas.
Ou as histórias dos fora-da-lei americanos, que por aqui também andaram, por exemplo Robert Leroy Parker, ou melhor Butch Cassidy.
Não há grandes registos do mundo físico, apenas pequenas frases secas, que criam o cenário impressionista. “Ao longo da linha de maré amontoavam-se pedaços de madeira embranquecidos pelo mar e, por vezes, viam-se costados de navios e vértebras de baleias”.
No fim esquecem-se todos os nomes, fica apenas uma amálgama de vidas que passaram por um espaço de fim de mundo.
Bruce Chatwin morreu novo, de uma doença contraída nas suas viagens (1949-1989).

Helena